O caminho do Peabiru e as rotas da integração bioceânica na América do Sul
Durante séculos aprendemos a olhar a América do Sul a partir da perspectiva do Hemisfério Norte. Quando o artista uruguaio Joaquín Torres García, em 1943, apresentou seu célebre mapa invertido da América, acompanhado da frase “nuestro norte es el Sur. No debe haber norte para nosotros, excepto en oposición a nuestro sur“, propôs muito mais do que a ruptura com a convenção cartográfica herdada do continente europeu, mudando prioridades e perspectivas. Sua inversão era, sobretudo, um gesto político e epistemológico: um convite para repensar o continente a partir de si mesmo, de sua própria história, questionando uma tradição secular que pensava a América Latina e o Caribe a partir de referências coloniais externas.
Mais de oito décadas depois, esse debate continua atual. Em um contexto marcado pela reorganização da economia mundial, pela crescente centralidade do eixo Ásia-Pacífico e pela disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a integração física sul-americana galga espaço no debate regional. Projetos de corredores bioceânicos, investimentos em infraestrutura e novas rotas comerciais recolocam uma antiga questão: integrar a América do Sul para quê e para quem? E, sobretudo, integrar a partir de qual projeto de desenvolvimento regional?
À primeira vista, trata-se de uma agenda contemporânea. Multiplicam-se projetos de infraestrutura, investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias e portos, ao mesmo tempo em que governos nacionais e organismos regionais voltam a vislumbrar a integração física do continente como condição para aumentar a competitividade econômica e ampliar a cooperação regional. É justamente aqui que reside uma hipótese que este ensaio procura desenvolver: a integração sul-americana não começou nos séculos XIX, XX ou início do XXI. Ela constitui uma característica histórica de longa duração da própria formação do espaço sul-americano. O que mudou ao longo do tempo não foi a existência dos caminhos que articulam o território, mas os povos que os controlaram, os interesses que passaram a orientá-los e os diferentes sentidos políticos atribuídos à integração.
Em outras palavras, muito antes dos processos de independência na América Latina e no Caribe, das formulações bolivarianas, do manifesto latino-americano de Raúl Prebisch quando esteve na liderança da CEPAL, do Mercado Comum do Sul (Mercosul) ou da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), povos originários já haviam construído complexas redes de trilhas que conectavam diferentes regiões do continente. Entre elas, destaca-se o Caminho do Peabiru, uma extensa rota transcontinental que, ao longo de milhares de anos, interligou os oceanos Atlântico e Pacífico, atravessando territórios que hoje pertencem a diversos países da América do Sul, como Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil.
Um caminho bioceânico ancestral
Com aproximadamente 4 mil quilômetros de extensão, o Caminho do Peabiru não era apenas uma via de deslocamento ou de intercâmbio comercial. Para diferentes povos indígenas, especialmente os guaranis, representava uma rota sagrada em direção à “Terra sem Mal” (Ivy Mara’ey), articulando dimensões espirituais, culturais e comerciais. Ao mesmo tempo, possibilitava contatos permanentes entre povos das terras baixas e dos Andes, favorecendo a cooperação muito antes da chegada dos europeus.
Essa perspectiva desafia uma interpretação recorrente segundo a qual a América do Sul teria sido historicamente fragmentada e isolada. Ao contrário, a existência do Peabiru, assim como do sistema viário andino conhecido como Qhapaq Ñan – consolidado durante o período Inca sobre caminhos ainda mais antigos construídos pelos povos Wari, Tiwanaku e Chimú –, revela que diferentes rotas já estruturavam o território sul-americano muito antes da constituição dos Estados nacionais. Mais do que simples vias de deslocamento, esses dois sistemas formavam uma verdadeira logística de integração ancestral. Enquanto o Qhapaq Ñan organizava o espaço andino no sentido norte-sul, o Peabiru estabelecia conexões horizontais entre os mundos andino, amazônico e platino, permitindo que diferentes ecossistemas e civilizações permanecessem em constante interação.
As constantes incursões guaranis em direção aos Andes ilustram essa história. Muito antes da conquista espanhola, grupos oriundos da atual região do Paraguai percorriam a rota transcontinental em direção aos territórios andinos, estabelecendo relações que alternavam cooperação e conflito com seus diferentes povos, entre eles os Incas. Ainda hoje, diversos pesquisadores identificam vestígios entre essas sociedades, perceptíveis na astronomia, na música, em técnicas de contabilidade, no vocabulário e até em determinados hábitos alimentares. Mais importante do que enumerar influências diretas é reconhecer que a circulação era parte constitutiva da história autóctone da região.
Sob essa perspectiva, o Peabiru pode ser compreendido como uma das primeiras instituições históricas da integração sul-americana. Não uma instituição no sentido jurídico, mas enquanto prática social capaz de organizar fluxos, criar redes de confiança e conectar territórios extremamente diversos ao longo do tempo. Assim, o subcontinente buscou se integrar por seus caminhos muito antes de ser fragmentada por suas fronteiras nacionais. Sua permanência revela que a integração continental não depende exclusivamente da existência de tratados, organismos internacionais ou estruturas estatais. Ela também pode emergir da ação cotidiana de povos que constroem e compartilham espontaneamente os espaços que habitam na região.

Desintegração colonial e neocolonial
A chegada dos europeus alterou profundamente a dinâmica desses caminhos. O que antes articulava os povos passou progressivamente a servir à conquista colonial, à exploração mineral e ao escoamento de riquezas para o mercado europeu. Conforme Rosana Bond, a trajetória pioneira de Aleixo Garcia é entendida como um importante divisor de águas. Utilizando trilhas indígenas já existentes, sua expedição alcançou os territórios do Império Inca sete anos antes da descoberta oficial por Francisco Pizarro, inaugurando uma lógica que converteria antigos caminhos ancestrais em corredores voltados para a extração de prata, ouro e outras matérias–primas coloniais, dado que a conexão bioceânica passou a atender prioritariamente aos interesses das metrópoles europeias. Por exemplo, entre 1503 e 1660, com as “veias abertas” pela conquista colonial, segundo Eduardo Galeano, chegaram à Espanha “185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata” extraídos das Américas, consolidando a inserção internacional baseada na exportação de minérios e produtos primários em geral, cujos efeitos estruturais impactam a economia latino-americana até hoje.
Séculos depois, a integração regional voltou a ocupar lugar central no pensamento latino-americano. Desde a criação da CEPAL, em 1948, consolidou-se uma tradição intelectual que compreendia a integração como instrumento de industrialização, fortalecimento dos mercados internos, ampliação da autonomia regional e superação da condição periférica da América Latina. Essa agenda inspirou diferentes experiências ao longo das décadas seguintes e encontrou novo impulso no início do século XXI, com iniciativas como o Mercosul Social, a UNASUL e a CELAC, e os projetos de integração de infraestrutura promovidos pela IIRSA, que não foram interrompidos a despeito das oscilações políticas e ideológicas da região; haja vista tratar-se de uma agenda supranacional, mas que, muitas vezes, carece de participação social.
Entretanto, a combinação entre a crise financeira internacional de 2008, o fim do superciclo das commodities (2015), a reprimarização das economias sul-americanas das últimas décadas e a ascensão de governos conservadores provocaram um significativo enfraquecimento dessa agenda. A integração regional perdeu densidade política e institucional justamente no momento em que a disputa entre Estados Unidos e China recolocava a América do Sul no centro das transformações geoestratégicas globais. Se antes o debate estava concentrado na construção de instituições regionais, com foco no fortalecimento de parcerias entre blocos como o Mercosul, a Comunidade Andina e a Aliança do Pacífico, hoje ele se desloca, cada vez mais, para discussões no âmbito da cooperação Sul-Sul, como é o caso do BRICS+, tendo como foco a viabilização de logística robusta, como corredores bioceânicos para o escoamento de commodities e de minerais críticos, alavancando as cadeias globais de suprimentos.
O Brasil e as rotas bioceânicas
No Brasil, desde Mário Travassos, diferentes gerações de geopolitólogos perceberam que o grande desafio continental consistia em superar a barreira andina e articular as bacias do Atlântico e do Pacífico. Décadas antes da IIRSA ou das atuais Rotas Bioceânicas, a integração transcontinental já aparecia como elemento estruturante do pensamento estratégico brasileiro. Curiosamente, aquilo que Travassos imaginava como projeto geopolítico nacional havia sido realizado, séculos antes, por sociedades indígenas que desconheciam tanto os Estados nacionais quanto as teorias clássicas da geopolítica. Durante décadas, a produção agrícola e mineral oriunda do centro-sul brasileiro percorreu milhares de quilômetros até o Atlântico para então contornar continentes e cruzar oceanos rumo à Ásia.
Atualmente existem poucas alternativas logísticas no hemisfério americano: o Canal do Panamá e o Estreito de Magalhães. É nesse contexto que o atual projeto das Rotas da Integração Sul-Americana, do Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), com foco em infraestrutura, comércio e intercâmbio com os países vizinhos, adquirem relevância estratégica.
Analisemos o caso específico da Rota 4 – Bioceânica de Capricórnio, que busca mitigar importante gargalo logístico, e que se assemelha, em alguma medida, ao trajeto do Peabiru. Ao conectar, por meio de rodovias, os estados brasileiros do Centro-Sul aos portos de águas profundas do norte do Chile – atravessando o Pantanal, o Chaco paraguaio e a Cordilheira dos Andes na região norte da Argentina –, as estimativas indicam que a rota poderá reduzir em 17 dias o trânsito marítimo e em cerca de 30% do frete em relação ao que se gasta para escoar os produtos pelo Oceano Atlântico via Porto de Santos. É fato inconteste que as novas rotas que conectam o Atlântico aos portos do Pacífico reduzem custos logísticos, aproximam a produção sul-americana dos mercados asiáticos e podem fortalecer a cooperação entre países vizinhos. Ao mesmo tempo, suscitam questionamentos sobre os rumos do desenvolvimento. Isto é, estamos construindo corredores capazes de integrar sociedades, promover inovação tecnológica e fortalecer cadeias produtivas regionais ou estamos apenas reproduzindo uma lógica histórica de exportação de commodities, com profunda degradação ambiental, por caminhos cada vez mais eficientes?
A resposta talvez dependa da capacidade de recuperar um sentido mais amplo para os processos de integração regional. Infraestrutura é condição necessária, mas não suficiente. Corredores logísticos precisam ser acompanhados por projetos, planejamento rigoroso e mecanismos de coordenação política, participação social, integração produtiva, cooperação científica, preservação ambiental e valorização dos conhecimentos dos povos originários. Caso contrário, existe o risco de que as novas rotas bioceânicas repitam, sob novas formas, antigas estruturas de dependência no bojo do nosso capitalismo periférico.
Talvez seja nesse ponto que o legado do Peabiru volte a dialogar com o presente. Muito antes de conectar mercados, aquele caminho conectava povos. Muito antes de servir às disputas geopolíticas entre grandes potências, articulava diferentes formas de habitar e compreender o território, que também é sagrado. Possivelmente o maior paradoxo da América do Sul seja que, enquanto dispomos hoje das mais sofisticadas tecnologias para atravessar os maiores obstáculos do continente, ainda não conseguimos construir um projeto político de integração altivo e duradouro.
Ao inverter o mapa da América, Torres García não pretendia apenas alterar nossa posição no globo. Convidava-nos a mudar nosso modo de olhar para o continente. O desafio atual talvez seja ainda maior: inverter o sentido da integração. Não basta construir caminhos entre oceanos, é preciso construir caminhos entre os povos. Afinal, se o nosso norte continua sendo o Sul, talvez o futuro da integração latino-americana e caribenha dependa menos da velocidade com que as mercadorias atravessam o continente e mais da capacidade de seus povos imaginarem, simultaneamente, um projeto comum de desenvolvimento com preservação ambiental, inovação tecnológica e o reconhecimento de saberes ancestrais que durante milênios permitiram a circulação de pessoas, culturas e conhecimentos na região.
Érico Massoli é Doutor pelo Doutorado Interinstitucional do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio) em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPG-ICAL) da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), onde foi posteriormente professor do curso de Relações Internacionais e Integração. Mestre em Sociologia e Bacharel em Administração, ambos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Atualmente, é Administrador no Instituto Mercosul de Estudos Avançados (IMEA) da Unila.
Fonte: Le Monde Dipolamatique Brasil

