BrasilBusinessCorredor BioceânicoLogísticaParaguayTransporte

Ponte de 1,3 km e US$ 184 milhões em comércio: a parceria de MS com a fronteira vai além da crise

Enquanto o Paraguai atravessa uma crise política provocada pela quebra de um banco, a obra que melhor resume a relação do país com Mato Grosso do Sul entra na reta final. A ponte sobre o Rio Paraguai entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, com 1.294 metros, está em fase de acabamentos e tem entrega prevista para o fim de novembro, segundo o acompanhamento do Ministério de Obras Públicas paraguaio.

Hoje, quem quer atravessar o rio naquele ponto depende de balsa. A viagem dura cerca de 15 minutos, e em dias comuns passam por volta de dez carros. Com a ponte, de cerca de 20 metros de largura e investimento de aproximadamente R$ 500 milhões, a ligação entre os dois países naquele trecho passa a ser feita por estrada.

A ponte não nasceu agora. A ligação rodoviária entre MS e o Oceano Pacífico pelo Paraguai é defendida em Porto Murtinho desde a década de 1980. Um dos nomes ligados a essa defesa é o ex-prefeito Heitor Miranda dos Santos, que administrou a cidade entre 2013 e 2016. Em setembro, uma lei federal deu o nome dele à ponte. A ordem de início da construção foi assinada em dezembro de 2022, pelos governos dos dois lados.

A ponte é a peça central da Rota Bioceânica, o corredor rodoviário que vai ligar MS aos portos do norte do Chile, passando pelo Chaco paraguaio e pela Argentina. A promessa é encurtar a viagem das cargas até a Ásia: o governo de MS fala em cerca de 12 dias a menos até a China, e outras estimativas chegam a 17 dias. Para o Estado, é uma alternativa ao Porto de Santos, hoje a principal saída das exportações.

O Paraguai faz a sua parte do caminho

Cerca de 580 km do corredor ficam em território paraguaio. Lá, a rodovia PY-15, conhecida como Picada 500, está sendo asfaltada em um trecho de 224 quilômetros, com investimento de US$ 354 milhões, dividido entre quatro consórcios. O projeto deve beneficiar diretamente mais de 266 mil pessoas numa região que sempre teve pouca estrutura, segundo o governo paraguaio.

O acesso paraguaio à ponte, um aterro de cerca de 3 quilômetros construído com areia retirada do próprio rio, custa cerca de US$ 18 milhões e é pago pela Itaipu Binacional, a usina que Brasil e Paraguai dividem no Rio Paraná. Em julho, as duas metades da ponte se encontraram sobre o rio, numa cerimônia que reuniu autoridades dos dois países, o embaixador paraguaio no Brasil e o prefeito de Iquique, no Chile.

A obra principal está quase pronta, mas a rota ainda tem pendências. Os acessos rodoviários dos lados brasileiro e paraguaio só devem ficar prontos em 2027. E há o desafio das aduanas: a carga vai atravessar quatro países, cada um com sua fiscalização. Está prevista a criação de um centro aduaneiro integrado na ponte, para concentrar os procedimentos de fronteira dos dois lados.

“O grande desafio da rota não é nem a parte estrutural da obra, a obra vai ficar pronta. Nós teremos ali o acesso concluído, a ponte já tá pronta praticamente, mas nós temos que organizar essa questão alfandegária”, disse Reinaldo Azambuja, eleito senador por MS, em entrevista durante a campanha, em agosto. Em outubro, a Receita Federal reuniu em Campo Grande transportadores e governos para discutir a integração das aduanas do corredor.

Vizinho, cliente e fornecedor

O Paraguai também é parceiro de negócios do Estado. De janeiro a setembro deste ano, MS comprou US$ 127 milhões do país vizinho e vendeu US$ 57,5 milhões, um movimento total de US$ 184,5 milhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. O álcool etílico paraguaio lidera as compras. Óleos vegetais, ração animal e eletrodomésticos estão entre as vendas.

A expectativa é que a rota amplie esse movimento e leve gente de um lado para o outro. O governo de MS projeta crescimento de 30% no turismo no primeiro ano de funcionamento do corredor e de até 70% a partir do segundo. As cidades do trajeto já se preparam: a Sanesul amplia o tratamento de esgoto em municípios como Porto Murtinho, que tem 92% de cobertura, Jardim e Nioaque.

Em Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, separadas por uma avenida, moradores trabalham, estudam e fazem compras dos dois lados. É essa convivência que faz a crise atual ser sentida também no Brasil: brasileiros que vivem no Paraguai estão entre os clientes com dinheiro preso no banco que quebrou.

Fonte: A Crítica

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *