Jaime Verruck aponta Maracaju como um dos municípios mais preparados para aproveitar a Rota Bioceânica
Maracaju está oficialmente inserida na dinâmica econômica da Rota Bioceânica e reúne condições para ser um dos primeiros municípios de Mato Grosso do Sul beneficiados pelo novo corredor internacional. A avaliação é do ex-secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul, Jaime Verruck, durante a sexta edição do Conexão para Transformar – Rota Bioceânica, realizada nos dias 9 e 10, em Maracaju.
Em entrevista durante o evento, Verruck afirmou que a participação do município no corredor não deve ser observada apenas pela presença da BR-267 ou pelo traçado apresentado em mapas. Para ele, Maracaju está integrada à rota principalmente por sua capacidade produtiva e por sua proximidade com o caminho que segue em direção a Jardim, Guia Lopes da Laguna e Porto Murtinho.
“Maracaju está oficialmente dentro da rota. Talvez o município ainda não tenha percebido o quanto está diretamente vinculado, não só no sentido físico, com a BR-267, mas também no sentido econômico”, afirmou.
Segundo o ex-secretário, o fortalecimento dessa percepção entre produtores, empresários e a população é fundamental para que o município consiga transformar sua posição geográfica em oportunidades concretas de desenvolvimento.
Produção agrícola coloca município em posição estratégica
Verruck ressaltou que Maracaju possui uma das bases agrícolas mais competitivas de Mato Grosso do Sul, com elevada produção de soja, milho e sorgo. Essa disponibilidade de matérias-primas coloca o município em uma posição favorável para atrair indústrias de processamento e ampliar a participação regional no comércio internacional.
Entre os produtos já preparados para acessar mercados externos, ele citou o DDG, coproduto gerado na fabricação de etanol de milho e utilizado principalmente na alimentação animal.
“Nós já temos aqui um produto pronto para caminhar pela rota, que é o próprio DDG, que já está sendo exportado para a China. Ele está pronto para sair a partir de Maracaju”, explicou.
Na avaliação de Verruck, empresas e produtores do município precisam voltar parte de suas estratégias para o oeste, em direção ao corredor bioceânico, sem abandonar os mercados tradicionalmente atendidos pelos portos do Oceano Atlântico.
Atualmente, produtos originados em Mato Grosso do Sul já são transportados aos portos brasileiros e seguem para a Ásia, inclusive pelo Canal do Panamá. Com a consolidação da Rota Bioceânica, parte desse fluxo poderá mudar de direção e alcançar os terminais portuários do norte do Chile.
“O que vai mudar é o sentido. O motorista, em vez de seguir para um lado, poderá caminhar em direção à Rota Bioceânica. Maracaju tem todo o potencial para participar desse processo”, destacou.
Impactos devem ser avaliados por cadeias produtivas
Questionado sobre estudos relacionados aos impactos da rota em municípios como Maracaju, Rio Brilhante e Dourados, Verruck explicou que a análise não pode se limitar às divisões territoriais.
Segundo ele, o desenvolvimento provocado pelo corredor deverá ocorrer principalmente por meio das cadeias produtivas, que envolvem diferentes municípios e etapas de produção, processamento e comercialização.
“O produto que será enviado pela rota não é apenas de um município, mas de uma cadeia produtiva. Por mais que o impacto seja territorial, a análise precisa ser setorial”, explicou.
Nesse contexto, o planejamento deve identificar quais produtos já possuem competitividade para acessar o corredor e quais setores ainda dependem da atração de novos investimentos.
Enquanto alguns municípios já contam com produtos preparados para exportação, outros precisam estruturar suas cadeias, ampliar a industrialização e atender às exigências sanitárias e comerciais dos mercados internacionais.
Integração com Tarapacá aproxima Mato Grosso do Sul do Pacífico
Durante a entrevista, Verruck também destacou a participação de representantes chilenos no evento e a crescente aproximação entre Mato Grosso do Sul e a Região de Tarapacá.
Ele lembrou que Tarapacá foi a primeira região chilena a instalar um escritório de representação em Campo Grande, criando uma estrutura permanente de aproximação com empresários e instituições sul-mato-grossenses.
Para o ex-secretário, a iniciativa demonstra que as regiões localizadas nas duas extremidades do corredor estão se antecipando às oportunidades econômicas.
“Mato Grosso do Sul está no início desse corredor, e Tarapacá está na outra ponta, com o Porto de Iquique e terminais privados. A região chilena está mostrando que quer ter preferência na movimentação da produção brasileira”, afirmou.
Verruck avaliou que, embora o Chile possua diferentes portos capazes de atender o comércio exterior brasileiro, os terminais que realizarem investimentos e apresentarem melhores condições logísticas conquistarão a preferência dos empresários.
“Tarapacá sai na frente porque sinaliza os investimentos necessários para atender a economia brasileira. Quem estiver mais preparado será escolhido pelo setor produtivo”, ressaltou.
Maracaju pode atrair investimentos na cadeia de carnes
Além da produção de grãos, Verruck apontou que Maracaju possui potencial para avançar nas cadeias de suinocultura, avicultura e processamento de carnes.
Segundo ele, a disponibilidade de soja, milho e sorgo favorece a produção de ração animal e cria condições para a instalação de empreendimentos capazes de agregar valor à produção agrícola local.
Apesar desse potencial, o ex-secretário explicou que a cadeia industrial de carnes ainda está mais estruturada em municípios como Dourados, Sidrolândia e Campo Grande. Por isso, Maracaju precisa atrair novos investimentos para transformar sua produção primária em alimentos industrializados destinados aos mercados nacional e internacional.
“O agronegócio de Maracaju está entre os mais competitivos do Estado. O próximo passo é atrair empreendimentos e utilizar as cooperativas, que já estão presentes no município, para agregar valor a essa matéria-prima”, disse.
Frigorífico busca habilitação para exportar
Durante a entrevista, Verruck também comentou a situação do frigorífico RRX instalado em Maracaju. Atualmente, a unidade opera sob o sistema de inspeção estadual e ainda precisa cumprir etapas de adequação para obter o Serviço de Inspeção Federal (SIF).
Segundo ele, a empresa está realizando investimentos em infraestrutura, incluindo a implantação de uma sala de desossa. Após a obtenção do SIF, poderá solicitar habilitações específicas para exportar aos mercados internacionais.
“Ainda existe um caminho para que esse frigorífico esteja efetivamente preparado para a exportação. Mas ele está muito bem posicionado do ponto de vista logístico e pode se tornar um dos mais próximos tanto do mercado chileno quanto dos portos do Pacífico”, avaliou.
A expectativa apresentada por Verruck é que, após as adequações necessárias, o empreendimento possa buscar habilitação para atender o mercado nacional e programas de exportação, como o destinado à comercialização de carne bovina para a China.
Agregar valor será decisivo
Para Jaime Verruck, Maracaju já possui a principal base necessária para aproveitar a Rota Bioceânica: uma produção agrícola robusta, tecnologia no campo, capacidade empresarial e localização próxima ao corredor.
O desafio agora é transformar essas vantagens em empreendimentos industriais, produtos de maior valor agregado e novos negócios direcionados aos mercados do Chile e da Ásia.
Ao sediar a sexta edição do Conexão para Transformar, o município também amplia sua visibilidade e aproxima produtores, empresários, governos e representantes internacionais das oportunidades existentes na região.
Na avaliação do ex-secretário, a Rota Bioceânica não beneficiará todos os municípios da mesma maneira. Os resultados dependerão da capacidade de cada território de compreender sua vocação econômica, preparar suas empresas e atrair investimentos alinhados às novas possibilidades logísticas.
Para Maracaju, essa oportunidade está diretamente relacionada à industrialização do agronegócio, à habilitação sanitária de empreendimentos e à utilização do corredor como alternativa para acessar os portos do Oceano Pacífico.

