Empresas de MS ainda não estão preparadas para a Rota Bioceânica
A Rota Bioceânica poderá aproximar Mato Grosso do Sul de mercados internacionais, ampliar a movimentação logística e abrir novas oportunidades para empresas e trabalhadores.
Mas, na avaliação do presidente do Conselho Regional de Administração de Mato Grosso do Sul (CRA-MS), Marcelo Gomes Soares, parte do empresariado sul-mato-grossense ainda não despertou para as transformações que poderão acompanhar a consolidação do corredor.
O alerta foi feito nesta quinta-feira (13) durante entrevista ao Giro Estadual de Notícias, do Grupo Feitosa de Comunicação. Marcelo participa, nesta noite, do IV Encontro Sul-Mato-Grossense de Administração (ESMAD), que será realizado às 19h, na Faculdade Insted, em Campo Grande.
Com o tema ‘Rota Bioceânica e oportunidades no mercado de MS – Conectando Mato Grosso do Sul aos mercados globais’, o encontro pretende discutir os efeitos do novo corredor sobre empresas, profissionais e setores como comércio exterior, logística, turismo, tecnologia e gestão.

Para Marcelo, o principal desafio neste momento não é apenas compreender o que a rota representa no mapa, mas preparar negócios e profissionais antes que as mudanças estejam plenamente instaladas.
“A gente acredita que as empresas ainda não estão preparadas. Hoje já estamos praticamente nos investimentos finais de infraestrutura da Rota Bioceânica, mas observamos que o sul-mato-grossense, as empresas e os empreendedores ainda não despertaram para essa questão. É justamente por isso que o Conselho resolveu colocar essa pauta em debate.”
Na avaliação do presidente do CRA-MS, empresas que pretendem aproveitar as oportunidades associadas à Rota Bioceânica precisam começar pelo planejamento estratégico.
Isso significa compreender onde o negócio está hoje, quais transformações poderão atingir seu segmento e qual posição a empresa deseja ocupar quando a nova dinâmica de circulação estiver consolidada.
Marcelo defende que o profissional de Administração terá papel relevante nesse processo por possuir uma visão mais ampla da organização e condições de auxiliar na definição dos caminhos necessários para alcançar objetivos futuros.
Segundo ele, esperar a rota estar completamente operacional para iniciar esse planejamento poderá colocar empresas locais em posição desfavorável.
“Precisamos pensar principalmente no planejamento estratégico dessas empresas, entender qual é o momento delas agora e, em função das transformações que a Rota Bioceânica vai trazer, definir o que elas querem para o futuro”, afirmou.
O presidente do Conselho ressaltou que o debate atual é diferente daquele realizado há poucos anos. Em 2023, segundo ele, o CRA-MS já discutiu o corredor durante um encontro em Bonito, mas, naquela ocasião, ainda existia maior incerteza sobre a concretização do projeto.
Agora, em sua avaliação, o cenário está mais avançado e exige uma mudança de postura.
Para explicar o risco de Mato Grosso do Sul receber investimentos sem conseguir aproveitar integralmente as oportunidades de emprego e negócios, Marcelo recorreu ao exemplo de Ribas do Rio Pardo.
O presidente citou a instalação da Suzano no município e afirmou que, embora o empreendimento tenha gerado milhares de vagas, parte delas precisou ser preenchida por trabalhadores de outros estados porque a mão de obra local não estava preparada para determinadas funções.
O exemplo, segundo ele, precisa servir de aprendizado para o período de transformação que poderá acompanhar a Rota Bioceânica.
“A Suzano chegou a Ribas do Rio Pardo e trouxe milhares de empregos. Mas grande parte desses empregos não foi ocupada por sul-mato-grossenses porque não estávamos preparados e qualificados para essas vagas. É justamente isso que não queremos que aconteça novamente.”
Marcelo argumenta que a preparação precisa ocorrer em dois níveis: o das empresas, para disputar mercados e se adaptar à nova concorrência, e o das pessoas, que precisarão estar qualificadas para ocupar as vagas geradas.
A preocupação também aparece diante de outros investimentos que vêm aumentando a necessidade de trabalhadores em municípios do interior.
Embora grande parte das discussões sobre a Rota Bioceânica esteja ligada à possibilidade de ampliar exportações e reduzir distâncias comerciais, Marcelo chama atenção para um efeito que considera igualmente importante: a entrada de produtos e empresas mais competitivos no mercado sul-mato-grossense.
Na prática, segundo sua avaliação, ao mesmo tempo em que empresas de Mato Grosso do Sul poderão encontrar novos caminhos para levar produtos a mercados como China e Índia, negócios locais também estarão mais expostos à concorrência de empresas e mercadorias vindas de fora.
“Da mesma forma que vamos escoar nossos produtos a preços mais competitivos para mercados globais, também vamos receber produtos mais competitivos. Essa questão vai gerar competição para o mercado interno. Por isso é extremamente importante que as empresas se preparem e invistam em comércio exterior e tecnologia.”
Marcelo considera que negócios que não observarem essas transformações poderão perder competitividade.
O presidente do Conselho defende que empresários passem a olhar para comércio exterior, tecnologia e planejamento não como temas distantes, mas como elementos que poderão influenciar diretamente a sobrevivência e o crescimento das empresas.

Marcelo também falou sobre uma percepção comum em relação aos conselhos profissionais: a ideia de que essas instituições existem apenas para fiscalizar e punir.
Ele reconheceu que a fiscalização do exercício profissional é uma missão institucional do CRA, mas afirmou que o papel da entidade não termina nessa atividade.
Segundo o presidente, promover debates sobre desenvolvimento econômico, qualificação, gestão e oportunidades também faz parte do trabalho desenvolvido pelo Conselho.
“Existe a missão institucional de fiscalizar a profissão, e ela é uma missão principal do Conselho. Mas também temos a missão de promover debates e diálogos que proponham soluções estratégicas para Mato Grosso do Sul e até incentivem o nosso desenvolvimento econômico.”
O IV ESMAD, segundo ele, é uma das iniciativas construídas com essa finalidade.
O evento não é restrito a administradores. A programação é voltada também a técnicos, docentes, acadêmicos e pessoas ligadas a Turismo e áreas relacionadas, além de empreendedores interessados nos efeitos da rota sobre seus negócios.
Para o presidente, o momento de preparação é agora. “Quem está interessado, quer empreender ou já empreende, mas quer acompanhar as mudanças que vão acontecer no nosso Estado, precisa participar desse debate. Queremos trazer informações e insights para que as pessoas se preparem antes de essas transformações acontecerem plenamente.”
Fonte: A Crítica

