BusinessChileCorredor Bioceânico

“Precisamos do Corredor Bioceânico para gerar empregos e desenvolvimento para nossas famílias”

Carolina Quinteros, chefe da Divisão de Desenvolvimento e Indústria (DIFOI) do Governo Regional de Tarapacá, detalha o progresso alcançado na infraestrutura rodoviária e portuária após sua participação no Pré -Fórum de Turismo de Tocopilla. Ela também apresenta o roteiro para que o Corredor Bioceânico se torne um motor de emprego, fornecedores e novos investimentos para a região.

Conversamos com Carolina Quinteros, chefe da Divisão de Desenvolvimento e Indústria (DIFOI) do Governo Regional de Tarapacá, advogada com mestrado em Administração de Empresas e vice-presidente da Corporação de Desenvolvimento de Tarapacá. Com vasta experiência na promoção da produção e na internacionalização da economia regional, Quinteros integrou a delegação de Tarapacá que participou do Pré-Fórum de Turismo para o Corredor Bioceânico em Tocopilla. Hoje, ela nos apresenta um panorama detalhado das medidas que a região está tomando para consolidar sua posição como porta de entrada para o Pacífico neste megaprojeto que integra Chile, Argentina, Paraguai e Brasil.

—Considerando que Tarapacá é projetada como a “porta de entrada para o Pacífico” no Corredor Bioceânico, em que estágio se encontram os projetos de infraestrutura rodoviária e portuária que conectam a região a essa rota, e quais são os principais investimentos planejados para concretizar esse papel?

Tarapacá se integrou ao cenário internacional e vem trilhando seu caminho com uma coordenação cada vez melhor. Hoje, existe um roteiro regional e nacional para suprir as lacunas de infraestrutura que identificamos para o corredor bioceânico. Em 2024, o Chile criou a Comissão de Alto Nível para a Consolidação do Corredor Rodoviário Bioceânico, composta por oito ministérios — Interior, Economia, Desenvolvimento e Turismo, Transportes, Obras Públicas, Relações Exteriores, Patrimônio Nacional, Finanças e Agricultura — e dois governadores regionais, Tarapacá e Antofagasta. Este órgão estabeleceu um Plano de Ação em 2025 que prevê ações em cinco áreas estratégicas.

Um dos eixos é o de Infraestrutura de Apoio, liderado pelo Ministério de Obras Públicas, que atualmente está desenvolvendo melhorias nas estradas. Para Tarapacá, estão planejadas melhorias na ligação rodoviária entre as Rodovias 1 e 16 em Iquique, com 30% da fase de projeto concluída. Além disso, estão em andamento melhorias no acesso ao Porto de Iquique, com um orçamento de US$ 720 milhões para o período de 2026 a 2028. Outro eixo é o de Logística Portuária, liderado pelo Ministério dos Transportes e Telecomunicações. Este eixo implementou medidas para aliviar o congestionamento no acesso ao porto, adquiriu um novo guindaste portuário e está avançando com a construção de um porto seco em Alto Hospício. Este porto está sendo gerenciado pela EPI, que já garantiu um novo local. Além disso, estão sendo feitos esforços para implementar medidas que aliviem o congestionamento no acesso ao porto.

Em ambas as áreas, nosso governo regional tem participado ativamente dos grupos de trabalho, priorizando desde o início, durante a fase de análise de lacunas e soluções, a necessidade de uma nova via de acesso e o descongestionamento e ampliação da já existente. Além disso, estamos desenvolvendo propostas para novas áreas de serviços — parques industriais, plataformas logísticas e instalações de armazenamento refrigerado — em conjunto com os municípios, a CORFO (Agência Chilena de Desenvolvimento Econômico) e a Corporação de Desenvolvimento Regional.

O desafio é fazer com que esses investimentos funcionem como um sistema. Se quisermos consolidar nossa posição como porta de entrada para a região Ásia-Pacífico, precisamos conectar adequadamente nossas fronteiras, rodovias, plataformas logísticas, aeroporto, zona de livre comércio e portos.

—Da DIFOI, que você lidera, como Tarapacá está se preparando para aproveitar as oportunidades econômicas que o corredor trará, especialmente em termos de emprego, fortalecimento das PMEs de logística e atração de novos investimentos?

—Como Governo Regional, e através da Divisão de Desenvolvimento e Indústria, sempre consideramos que o principal é construir uma visão compartilhada, que permita o trabalho conjunto com todos os principais atores do território: o setor público, o setor privado, a academia e, claro, a comunidade, protagonista do desenvolvimento que se abre como uma oportunidade, com base nas necessidades e lacunas que a indústria nos apresenta.

Juntamente com o nosso governador, temos plena consciência de que o corredor não pode se limitar ao tráfego de mercadorias. Para que se torne verdadeiramente uma oportunidade de desenvolvimento, precisa gerar empregos, fortalecer as nossas empresas e fornecedores e atrair novos investimentos para Tarapacá, proporcionando desenvolvimento social e econômico para as nossas famílias.

Nesse sentido, temos trabalhado em três níveis. No âmbito regional, a Estratégia de Desenvolvimento Regional 2023-2033 priorizou a internacionalização da economia regional como objetivo do Eixo Econômico. Com a aprovação do Conselho Regional, o Governo Regional está concentrando recursos públicos em logística e comércio internacional: projetos de P&D&I por meio dos concursos CICYT (Inovação, Ciência e Tecnologia) implementados por universidades da região e do país; instrumentos CORFO, como Bens Públicos, PAR e Activa; e estudos para uma plataforma logística e um terminal de estacionamento para caminhões em Alto Hospício, que incluem missões tecnológicas e ações para atrair investimento estrangeiro, entre outros. No total, esses projetos financiados pelo Governo Regional somam pelo menos US$ 6,231 bilhões destinados exclusivamente ao desenvolvimento do setor logístico.

Devemos também mencionar que continuamos a explorar alternativas para superar o atraso causado pela desistência de uma unidade técnica de um projeto de 4,4 mil milhões de dólares, aprovado em 2023, para um parque industrial na região. Este atraso atrasou parte do planejamento com as principais partes interessadas, e esperamos retomá-lo a partir de outras perspetivas. Além disso, temos promovido cursos de língua portuguesa — através da presidência do Conselho Regional de Formação da SENCE — bem como cursos de operação de máquinas. Firmámos ainda convênios com universidades de Campo Grande, assinados pela Empresa de Desenvolvimento de Tarapacá, entidade presidida pelo governador e da qual sou vice-presidente. Adicionalmente, iremos submeter novas iniciativas de internacionalização à Direção-Geral do Orçamento (DIPRES) para aprovação.

—E, nos níveis nacional e internacional, quais linhas de ação estão sendo promovidas?

Em nível nacional, como Governo Regional, fazemos parte da Comissão de Alto Nível para a Consolidação do Corredor Rodoviário Bioceânico, onde o nosso governador, juntamente com o Governo Regional de Antofagasta e o Ministério da Economia, lidera o componente de Oportunidades de Negócios e Investimento Privado. Nessa comissão, canalizamos as lacunas e necessidades identificadas em nossa região. O foco foi em soluções e um roteiro que foi formalizado no Plano de Ação, com ênfase na modernização da Zona Franca de Iquique, no fortalecimento do ecossistema logístico regional, no estímulo às exportações e às cadeias de valor e na consolidação do setor turístico.

Em nível internacional, somos cofundadores do Fórum de Territórios Subnacionais do Corredor Bioceânico de Capricórnio, onde trabalhamos em conjunto com os oito governos regionais dos países que compõem a rota: Mato Grosso do Sul (Brasil); Alto Paraguai, Presidente Hayes e Boquerón (Paraguai); Jujuy e Salta (Argentina); e Antofagasta e Tarapacá (Chile). Nesse contexto, são realizados fóruns, seminários e mesas-redondas empresariais, além de terem sido encomendados estudos sobre comércio e procedimentos transfronteiriços, infraestrutura física e digital e desenvolvimento produtivo — analisando serviços de logística, portos, mineração e turismo. Aguardamos os resultados desses estudos em breve. Esses estudos foram financiados por meio de recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), através de um fundo não reembolsável de US$ 600.000, e o mesmo banco financiará futuramente um segundo projeto no valor de US$ 200.000.

Um evento significativo é que, pela primeira vez, nossa região terá sua mais alta autoridade presidindo um órgão internacional: no próximo ano, o Governador Carvajal atuará como presidente pro tempore do Fórum dos Estados Subnacionais do Corredor de Capricórnio. O Fórum será realizado em nossa região, recebendo autoridades e líderes empresariais do Brasil, Paraguai, Argentina e do restante do Chile. Isso dará a Tarapacá um papel de destaque junto às autoridades desses quatro países.

Além disso, há o escritório comercial de Tarapacá em Campo Grande, Brasil — administrado pela Corporação de Desenvolvimento —, que, em seu terceiro ano de operação, conseguiu posicionar o nome de Tarapacá em Mato Grosso do Sul e busca conectar empresários daquele estado brasileiro com a nossa região.

Acreditamos que estamos abordando de forma abrangente todos os aspectos da implementação do Corredor Bioceânico em nosso território: desenvolvendo estudos para orientar o futuro em colaboração com instituições acadêmicas e consultorias internacionais, integrando outros territórios, apoiando o desenvolvimento de capital humano e fornecedores e apresentando propostas para revitalizar uma zona franca alinhada às novas tendências e operações portuárias que alavanquem a nova concessão e nos transformem no polo logístico do trio regional. Tudo isso, sem dúvida, beneficiará o desenvolvimento econômico e social de nossa região.

Tocopilla sediou o Pré-Fórum de Turismo para o Corredor Bioceânico há alguns dias. Qual foi o papel de Tarapacá nesse evento e como a região se coordenou com Antofagasta — que detém a presidência pro tempore — para potencializar os benefícios do corredor no norte do país? Além disso, quais foram os principais acordos ou conclusões alcançados nessa reunião para a região?

—Como membros da Comissão Executiva do Fórum dos Territórios Subnacionais do Corredor Bioceânico de Capricórnio, reunimo-nos virtualmente a cada 15 dias com os oito governos regionais dos quatro países ao longo da rota e com o BID, que inclui a região de Antofagasta. Portanto, desenvolvemos um trabalho coordenado e colaborativo com eles.

Tarapacá participou deste pré-fórum sobre Turismo e Participação Cidadã com uma delegação de 15 pessoas — conselheiros regionais, prefeitos, o diretor do SERNATUR (Serviço Nacional de Turismo), equipes municipais, representantes comunitários e líderes empresariais regionais. Esses indivíduos participaram da Comissão de Turismo e Cultura em Tocopilla e da Comissão de Participação Cidadã, Perspectiva de Gênero e Povos Indígenas em San Pedro do Atacama. Apresentaram suas opiniões e participaram das sessões, dando continuidade aos acordos firmados no fórum anterior, realizado em Jujuy. Nessas sessões, foram abordados temas como a integração da oferta turística, a identidade dos destinos, a infraestrutura e a conectividade. Entre os principais acordos firmados, destacam-se: continuar a dar destaque aos atrativos turísticos dos oito territórios no site oficial do corredor; continuar a desenvolver o guia de boas práticas nessa área; e fortalecer a coordenação entre órgãos públicos, municípios e o setor privado para consolidar circuitos turísticos integrados entre os países do corredor.

Tudo isso nos permitirá consolidar a oferta turística da nossa região, posicioná-la internacionalmente e aumentar o fluxo de turistas para Tarapacá. Este trabalho não é apenas relevante hoje, mas também devemos sustentá-lo no próximo ano, quando Tarapacá assumir a presidência pro tempore do Fórum; daí a importância da participação ativa dos setores público e privado neste tipo de iniciativa. Além deste encontro, no ano passado solicitamos que a SERNATUR desenvolvesse pacotes turísticos regionais para os nossos mercados-alvo e, desde então, realizamos sessões conjuntas de capacitação de mercado e continuamos a preparar e fortalecer a nossa oferta turística nacional para este tipo de evento.

Sabemos que o corredor não se resume apenas à logística e ao transporte de cargas. O turismo é uma das atividades que mais podem se beneficiar de uma maior integração entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, gerando circuitos internacionais e novas oportunidades para operadores turísticos, hospedagem, gastronomia e serviços locais. Essas iniciativas nos permitem avançar nessa visão compartilhada entre os territórios, identificar oportunidades e coordenar ações para que os benefícios do corredor também cheguem às comunidades e economias locais. A partir de Tarapacá, queremos que essa integração valorize nossas atrações, nossa identidade e nosso patrimônio, e que o turismo seja parte efetiva das oportunidades econômicas proporcionadas pelo Corredor Bioceânico.

Fonte: Rodrigo Ramos Bañados – Ojo en el Norte

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *