Corredor Bioceânico Patagônia Norte: O ambicioso projeto de 1,8 bilhão de dólares para transformar a logística regional
O vice-governador de Río Negro, na Argentina, Pedro Pesatti, lançou uma peça fundamental para o futuro econômico da Patagônia Setentrional: o Projeto Preliminar para a Gestão do Corredor Bioceânico para Integração e Desenvolvimento (CBID).
Em entrevista à FM DE LA COSTA (www.fmdelacosta999.com.ar), o contador Juan Manuel Comancho, coordenador técnico da iniciativa, explicou que o plano busca aproveitar a “janela de oportunidade” energética para deixar uma infraestrutura permanente que sobreviva ao ciclo dos hidrocarbonetos.
Vaca Muerta como a “desculpa perfeita”
O projeto não surge de uma aspiração abstrata, mas de uma necessidade logística urgente dentro da indústria de xisto. Comancho foi enfático ao definir o papel da Bacia de Neuquén: “Vaca Muerta é atualmente a justificativa perfeita porque é uma demanda fundamental que, para se desenvolver conforme as exigências do mercado, necessita da incorporação de suprimentos e areia que não podem ser obtidos por terra.”
Atualmente, a atividade de extração de hidrocarbonetos satura as estradas com a movimentação anual de 1,5 a 3 milhões de toneladas de areia para fraturamento hidráulico, além de equipamentos e tubulações. O transporte ferroviário permitiria a movimentação desses volumes com “menor custo por tonelada-quilômetro, menores emissões e menos acidentes”.

Visão geral do projeto: 420 km de novos trilhos
O corredor prevê uma rede que combina trechos a serem reabilitados e obras totalmente novas para ligar o Atlântico ao Pacífico:
- Trecho San Antonio Este – Choele Choel : Está prevista a construção de aproximadamente 240 quilômetros de novos trilhos para conectar o porto de Rio Negro ao entroncamento ferroviário do Vale Médio.
- Ramal de Energia (Añelo) : Uma nova estrada de 179 quilômetros que ligará Contralmirante Cordero ao centro de Vaca Muerta, em Añelo.
- Reabilitação da Estrada Principal : A melhoria dos mais de 400 quilômetros existentes entre Choele Choel, Cipolletti e Zapala, que hoje têm uso limitado ao transporte de calcário.
O cerne do projeto: o investimento estimado
Um dos pontos destacados pela Comancho e pelo documento técnico é a magnitude financeira do projeto, dividida em etapas de execução autônomas.
- Fase Argentina (Doméstica) : O investimento preliminar varia entre US$ 1,8 bilhão e US$ 2,8 bilhões. Esta fase inclui a ligação ferroviária SAE-Choele Choel, o ramal para Añelo e os terminais intermodais. Segundo Comancho, trata-se de uma “magnitude que pode ser absorvida por meio de uma combinação de instrumentos disponíveis nos sistemas financeiros nacional e internacional”, incluindo contratos de frete com o setor privado.
- Etapa Binacional (Travessia da Montanha) : O fechamento da ligação com o Chile, através dos Pasos de Pino Hachado ou Mallín Chileno, exigiria um investimento adicional de US$ 1,8 bilhão a US$ 3,2 bilhões.
Além do petróleo: frutas e produtos petroquímicos
O objetivo público do projeto é que a energia financie o desenvolvimento de outros setores. Para os fruticultores, o trem significaria recuperar a competitividade diante dos altos custos do transporte rodoviário. “Peras e maçãs viajam pelo Atlântico, mas também poderiam viajar pelo Pacífico… Depende dos produtos; vinhos podem ser exportados pelo Pacífico”, destacou Comancho.
Além disso, o projeto promove a instalação de complexos petroquímicos na região para processar gás e etano no local, gerando polietileno, fertilizantes e plásticos de valor agregado para exportação direta pelos portos chilenos de Talcahuano e Concepción.
A visão estratégica para a Ásia
A ligação com o Chile não é um detalhe insignificante. Ao transportar os produtos de Río Negro e Neuquén pelo Pacífico, eles ficariam aproximadamente 2.600 milhas náuticas mais perto dos mercados asiáticos (como a China ou o Japão) do que se fossem transportados pelo Atlântico. Isso se traduz em uma economia crucial em dias de trânsito e custos de combustível.
“Estamos pensando no dia seguinte, quando não tivermos mais esses recursos não renováveis… é importante agora aproveitar esta oportunidade que Vaca Muerta nos oferece para que amanhã tenhamos uma infraestrutura ferroviária”, concluiu Comancho na FM de la Costa.
Próximos passos
A proposta preliminar prevê a criação de uma Unidade de Gestão Político-Técnica multijurisdicional entre Río Negro, Neuquén, Buenos Aires e o governo nacional para concluir os estudos de pré-viabilidade em 12 meses. O objetivo é claro: deixar de considerar a Patagônia Setentrional como uma periferia e transformá-la na “dobradiça continental” da Argentina.
Fonte: Notícias Río Negro

