Opinião: Projeção do Paraguai com a cooperação de Taiwan
“Muitos países se aliaram à China continental, mas, a longo prazo, nenhum se beneficiou dessa relação.”
O Paraguai encontra-se num momento crucial da sua história. Tendo sobrevivido a duas guerras internacionais e a devastadoras guerras civis, o país ficou prostrado e mergulhado numa pobreza extrema, isolado e esquecido pelo resto do mundo — a tal ponto que Augusto Roa Bastos descreveu o Paraguai, com muita propriedade, como uma ilha rodeada de terra. Esta situação está a mudar, contudo, uma vez que o país tem vindo a renascer desde 1970. Desde a crise económica de 2002-2003, foram tomadas medidas que impulsionaram o Paraguai para a frente. E é aqui que entra a cooperação com a República da China (Taiwan). O Paraguai reconhece Taiwan como uma nação soberana e mantém fortes relações diplomáticas com o país.
Taiwan coopera com diversos programas de desenvolvimento no Paraguai. Taiwan abriu suas portas para nossa produção, e cabe às empresas paraguaias tomar medidas para impulsionar a indústria nacional, visando o mercado taiwanês. É nesse contexto que surgem vozes que buscam mudar o rumo das coisas, substituindo Taiwan pela China continental, a República Popular da China. O caminho que o Paraguai escolher definirá o futuro próximo do país.
É fundamental interpretar o momento histórico da relação entre o Paraguai e Taiwan, pois sua projeção vai além do âmbito estritamente local, alcançando níveis globais.
Embora o Paraguai não tenha o status de potência, nem regional nem globalmente, sua decisão de reconhecer diplomaticamente Taiwan o colocou em uma mesa de negociações onde as duas potências globais, os EUA e a China, discutem assuntos, com a participação de outras potências regionais e diversos atores econômicos de peso e presença global, como grandes empresas multinacionais e globais de tecnologia.
Não nos enganemos: se o Paraguai tem um lugar à mesa onde se jogam as grandes ligas da política e da economia globais, sua voz pode não ter o poder de ser ouvida, mas está presente, e nosso país pode colher imensos benefícios políticos e econômicos da decisão de reconhecer Taiwan. Muitos países se aliaram à China continental, mas, a longo prazo, nenhum se beneficiou dessa relação, porque sempre há apenas um vencedor: a China.
O principal benefício do reconhecimento de Taiwan como nação soberana é a possibilidade de firmar acordos bilaterais, o que confere ao Paraguai imensa margem de manobra em relação a Taiwan — algo que muitos países não têm e não terão enquanto permanecerem atrelados à China continental. Uma primeira possibilidade já se vislumbra: a construção conjunta (50/50) de um centro de inteligência artificial, um centro de dados que, se concretizado, posicionará o Paraguai no cenário mundial.
Isso abre uma infinidade de novas possibilidades, pois reunirá outras vias de desenvolvimento paraguaio, como o aproveitamento do talento paraguaio formado na Universidade Politécnica Taiwan-Paraguai, o futuro Distrito Digital adjacente e a potencial expansão da Agência Espacial Paraguaia para incentivar empresas privadas paraguaias a entrarem nesse nicho de mercado, impulsionadas pelas necessidades de conectividade do centro de dados mencionado. Isso representa empregos de qualidade para jovens paraguaios que atualmente cursam graduação em diversas universidades do país.
Este é um exemplo de tudo o que o Paraguai pode alcançar mantendo, expandindo e aprimorando relações diplomáticas soberanas com Taiwan e, ao mesmo tempo, mostra tudo o que podemos perder se nos distanciarmos de Taiwan e nos aliarmos à China continental.
Por Gerardo Maldonado – Ultima Hora

