Rota Bioceânica e vocação estratégica de Brasília
Brasília é o maior projeto estratégico do país no século 20. Sua construção não foi apenas a transferência da capital para o interior. Representou a decisão de Estado de transformar a geografia econômica e política do Brasil, integrar seu território, estimular a interiorização do desenvolvimento e projetar uma visão de futuro nacional. No século 21, a natureza da integração está mudando. A competitividade das nações depende cada vez mais da capacidade de produzir conhecimento, dominar tecnologias, processar dados e participar de novas redes digitais.
É nesse contexto que a Rota Bioceânica de Capricórnio pode adquirir significado estratégico semelhante, em uma escala sul-americana. Mais do que um corredor destinado a aproximar o Atlântico e o Pacífico, ela pode representar plataforma de integração, econômica, tecnológica e digital, conectando territórios, mercados, cadeias produtivas e centros de conhecimento.
A criação da IIRSA, na Cúpula de Presidentes, em 2000, conferiu a Brasília papel central na formulação da infraestrutura da América do Sul, região que ainda carece de estratégia digital unificada. O Corredor Logístico representa oportunidade de refletir sobre essa lacuna a partir dos compromissos do Consenso de Brasília (2023). Como superar a assimetria regulatória regional e aproximar a Lei de Proteção de Dados de 2018 à legislação de outros países vizinhos? Como conciliar diferentes níveis de maturidade jurídica, convergir interesses e reduzir vulnerabilidades? A região exporta dados brutos e talentos científicos, e importa soluções de inteligência artificial (IA) e serviços de nuvem de alto valor agregado, que aprofundam a dependência econômica e tecnológica.
O ecossistema digital global está sendo moldado. Suas implicações estratégicas e geopolíticas demandam escrutínio e juízo crítico. Esse exercício pressupõe amplo debate interno, articulação regional e multilateral. Na economia moderna, a soberania deixa de ser apenas domínio sobre o território para tornar-se capacidade de orientar conhecimento e inovação, contribuindo para a construção da ordem. Cabos de fibra ótica, centros de processamento de dados e IA determinam a competitividade das nações.
O Plano Mestre da Rota identifica a conectividade digital como um dos pilares de integração regional. O objetivo não é só reduzir tempo e custos de transporte, mas criar condições para a inovação e produção integrada. Brasília pode mitigar gargalos digitais da rota em várias frentes com vistas à interconexão de sistemas aduaneiros, planejamento da expansão da conectividade, articulação de parceiros internacionais para superar emergências na fronteira e garantir segurança cibernética.
A conclusão da Rota, em 2027, mostra o interesse regional no êxito da iniciativa e a vitória do pragmatismo sobre a sintonia ideológica entre governos. Brasília consolidou-se como centro da administração pública. O desafio agora é ampliar essa vocação e tornar-se polo de inteligência estratégica e governança digital. Essa nova missão pressupõe visão de sustentabilidade compatível com a singularidade da capital federal.
Patrimônio Cultural da Humanidade, Brasília ocupa, também, posição geográfica crítica no Cerrado, bioma de relevância para a biodiversidade e a segurança hídrica nacional. A proteção de seus recursos naturais, nascentes e ecossistemas deve integrar qualquer estratégia de desenvolvimento, inclusive as associadas à expansão da infraestrutura digital. A Rota pode transformar Brasília no cérebro logístico e de inteligência de dados, mas igualmente num vetor de sustentabilidade global a partir de um dos maiores corredores comerciais do planeta ligados ao Indo-Pacífico por meio de estrada física, infovia e cabos submarinos até Austrália e Ásia.
A integração promovida pela Rota Bioceânica implica sistemas aduaneiros interoperáveis, certificação eletrônica de documentos, rastreabilidade logística, proteção de dados e aplicação de IA à gestão do comércio internacional. Essas funções dependem menos de infraestrutura física do que de capacidades digitais avançadas. Brasília deve converter-se na plataforma regional de serviços digitais voltados à integração sul-americana e à segurança cibernética. A economia digital reduz assimetrias históricas. Ao contrário da industrial clássica, dependente da geografia e de recursos naturais, a economia do conhecimento valoriza capital humano, inovação e conectividade. Regiões tradicionalmente periféricas integram-se a cadeias globais de valor por meio de serviços digitais.
Essa mudança apresenta dimensão geopolítica. No mundo da competição estratégica entre grandes potências, a soberania depende do controle do território, mas também da capacidade de produzir conhecimento e proteger infraestruturas digitais críticas. A integração física promovida pela Rota e a integração digital liderada por Brasília constituem faces complementares da mesma estratégia nacional de desenvolvimento, que aproxima o Mercosul de seu principal mercado no Indo-Pacífico com vistas à nova economia do século 21.
Fonte: Correio Braziliense
Por Sérgio E. Moreira Lima, embaixador na Austrália (2019-2021)

