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“Precisamos impedir que o Corredor Bioceânico se torne uma via expressa para o crime”: Procurador Juan Castro Bekios em fórum internacional

O Procurador Regional de Antofagasta, Chile, Juan Castro Bekios, alertou que a futura implementação do Corredor Bioceânico de Capricórnio poderá se tornar um fator decisivo para o avanço do crime organizado transnacional na Macrozona Norte e, portanto, instou que sejam tomadas medidas equivalentes aos riscos que poderão ser gerados.

Castro Bekios participou esta semana da Mesa Redonda Internacional sobre o Corredor Bioceânico: Perspectivas Nacionais, Coordenação e Desafios Compartilhados, realizada em Assunção, Paraguai, onde falou sobre os riscos, ameaças e transformações que este importante projeto de integração regional poderá causar.

De acordo com a análise apresentada na reunião, a região está passando por uma profunda transformação em seu cenário criminal, marcada pelo estabelecimento de organizações criminosas estrangeiras, pela consolidação de assentamentos irregulares com características de favelas e pela crescente vulnerabilidade das rotas logísticas que conectam o Chile ao restante do Cone Sul.

Nesse contexto, ele afirmou que o Corredor Bioceânico se configura como um “ponto crítico”, uma vez que a rota, que ligará o porto brasileiro de Santos aos terminais marítimos de Antofagasta, Mejillones e Iquique, permitirá comunicação direta com áreas controladas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) ou onde foram detectadas atividades de financiamento de organizações como o Hezbollah, por exemplo, na tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai.

“Este corredor terrestre, que se estende por mais de 3.000 quilômetros, pode funcionar como um multiplicador de ameaças criminosas, facilitando o transporte em larga escala de mercadorias ilícitas e abrindo novas rotas de exportação de drogas para mercados de alto valor, como a Austrália e o Japão”, disse ele.

Sistema adaptável

Durante o encontro internacional, organizado pela Ordem dos Advogados dos Estados Unidos (American Bar Association) e pelo Ministério Público da Argentina, o procurador regional explicou que, na América Latina, o crime organizado transnacional transcendeu o modelo hierárquico tradicional para se consolidar como um “sistema empresarial global, modular e altamente adaptável”.

“Isto representa uma ameaça existencial à segurança e à estabilidade democrática da região. A magnitude desta ameaça é evidenciada pelo custo social do crime, estimado em 168 mil milhões de dólares anualmente, o equivalente a 14,2% do Produto Interno Bruto (PIB) regional”, afirmou.

Referindo-se especificamente ao Chile, o procurador afirmou que essa ameaça se concentra na Macrozona Norte e na Região de Antofagasta, devido a aspectos como sua conectividade terrestre, aérea e marítima, o fluxo de capitais, a porosidade da fronteira e a alta vulnerabilidade social, que constituem um ecossistema ideal para o desenvolvimento de atividades criminosas em larga escala.

Medidas

O procurador também se referiu ao Plano de Ação do Corredor Bioceânico promovido pelo governo anterior, observando que este tem um foco rodoviário e preventivo, sem considerar a dimensão criminal ou a inteligência criminal necessária para enfrentar a magnitude da ameaça. “Embora o plano fale da possível presença de quadrilhas criminosas, a realidade operacional mostra que essas quadrilhas já estão estabelecidas”, afirmou.

Os números das apreensões reforçam a gravidade da situação. Em 2025, a região atingiu um recorde histórico com mais de 38 toneladas de drogas apreendidas, quase o dobro do ano anterior, destacando-se o aumento explosivo da cetamina, cujas apreensões cresceram mais de 1.000%, e o surgimento de metanfetaminas de alta pureza.

Nesse ponto, Castro Bekios argumentou que a resposta do Estado deve ser abrangente e urgente, identificando como prioridades a recuperação do controle territorial nos acampamentos das favelas, o fortalecimento da inteligência prisional, a modernização da fiscalização marítima e aduaneira e a implementação de sistemas de rastreabilidade digital para o transporte de cargas.

Ele também enfatizou a necessidade de intensificar a cooperação internacional, especialmente com os procuradores do Cone Sul, para monitorar os movimentos de organizações como o PCC e o Tren de Aragua.

O procurador concluiu que a segurança no norte do Chile se tornou a fronteira onde o Estado deve demonstrar sua capacidade de enfrentar o crime organizado transnacional. Em sua opinião, o sucesso do Corredor Bioceânico como motor de desenvolvimento dependerá de ele não se tornar uma “rodovia para o crime”.

Fonte: Timeline

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