Muito além dos caminhões: Como o Corredor Bioceânico vai criar novos empregos em MS
Mais do que uma infraestrutura projetada para encurtar o caminho das commodities sul-americanos até o mercado asiático, o Corredor Bioceânico enfrenta o desafio imediato de consolidar sua governança institucional e expandir seu impacto socioeconômico.
No segundo episódio do podcast especial sobre o Corredor, realizado pela Massa FM Campo Grande, autoridades do Brasil, Chile e Argentina discutiram as estratégias locais para transformar o traçado rodoviário em um verdadeiro eixo de desenvolvimento regional.
O nó do centralismo e o peso da “caneta” nas capitais
Um dos pontos mais críticos debatidos foi a distância entre as demandas das províncias e estados que compõem a rota e o ritmo de tomada de decisões nos grandes centros políticos do continente.
Para o secretário-executivo da Agência Provincial do Corredor Bioceânico (Argentina), Alejandro Marenco, a centralização histórica ainda dita o ritmo da infraestrutura.
“A caneta das decisões está no Itamaraty, no Palácio de López no Paraguai, na Casa Rosada em Buenos Aires e no Palácio de La Moneda em Santiago do Chile”, pontuou Marenco, ilustrando graficamente a dependência dos governos federais.
“À medida que os presidentes ou as autoridades de decisão não estão bem informados, torna-se muito difícil romper essa dinâmica”.
Apesar do entrave centralizador, os números demonstram a urgência de soluções. O Passo de Jama, trecho montanhoso que liga a Argentina ao Chile, registrou um incremento de 7 mil caminhões no fluxo de transporte de cargas entre 2024 e 2025, além do trânsito de quase 250 mil pessoas no período.
Assimetrias legislativas e o desafio do transporte
Outro obstáculo nevrálgico para a eficiência da rota é a falta de harmonização nas legislações de trânsito e alfandegárias entre os quatro países. “O que em um país está permitido, no outro não. O que é sancionável em um lado, no outro não”, explicou Marenco, citando como exemplo o uso de bitrens, autorizados em partes da Argentina, mas proibidos nas províncias montanhosas de Jujuy e Salta devido à topografia e limitações de infraestrutura.
O gestor de negócios do Escritório Comercial de Tarapacá em Campo Grande, Fábio Roberto Cordeiro, reforçou que a lentidão aduaneira pode comprometer a principal vantagem competitiva do projeto, que é reduzir o tempo de viagem até o mercado chinês em relação aos portos de Santos ou Paranaguá.
“Não podemos ter caminhões parados de 5 a 10 dias em cada fronteira, sob o risco de perder os 15 a 17 dias planejados para o fluxo total”, alertou Cordeiro, lembrando a crise recente do Canal de Panamá como um exemplo da necessidade de rotas mais ágeis.
Para contornar a lentidão na mudança de leis nacionais, os estados subnacionais têm apostado na modernização tecnológica. A assessora especial de integração do Corredor Bioceânico da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Danniele Paiva, apontou que o foco atual é a integração de sistemas digitais.
“Ainda que na legislação a gente tenha um trâmite mais lento, nos processos estamos conseguindo criar soluções tecnológicas mais ágeis para garantir a celeridade com o corredor”.
Paradiplomacia: o impulso que vem de baixo
Diante da inércia dos governos centrais, ganhou força o conceito de paradiplomacia — a articulação direta entre governos estaduais e provinciais à margem das capitais federais.
A coordenadora técnica da Agência Provincial na Argentina, Agustina Berayra, destacou que a sinergia construída recentemente entre os oito estados subnacionais que formam o consórcio da rota é inédita.
“Embora as decisões finais estejam no nível central, hoje quem dá o dinamismo e executa o processo somos nós, os governos subnacionais, impulsionando a agenda de baixo para cima”, afirmou Berayra.
Essa articulação conjunta permitiu que representantes locais levassem cobranças firmes diretamente ao Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, demandando respostas objetivas dos órgãos de fronteira.
Conexões além do comércio: turismo e educação
Os participantes do painel foram unânimes ao afirmar que o sucesso do projeto depende de a população compreender que o corredor não se limita ao tráfego de caminhões pesados.
O cenário abre frentes imediatas para o turismo terrestre e de experiência. Cordeiro citou o crescimento do segmento de motorhomes em Mato Grosso do Sul e o desconhecimento mútuo de atrativos turísticos únicos, como o deserto do Atacama no Chile e o Bioparque Pantanal em Campo Grande.
“Temos que ‘vender’ o que nós somos para nós mesmos, integrando nossas populações antes de focar apenas no comércio internacional“, defendeu Cordeiro.
A integração também já colhe frutos nas áreas de educação e cultura. Universidades estaduais e federais de Mato Grosso do Sul mantêm convênios com instituições chilenas e internacionais para pesquisas científicas no Pantanal.
Na vertente social, programas de fomento ao empreendedorismo executados pelo Sebrae-MS têm capacitado comunidades indígenas e quilombolas para o etnoturismo ao longo da rota, espelhando modelos de negócios geridos por povos originários no norte do Chile.
Em Mato Grosso do Sul, o comitê de governança estadual (CEG-Rota) atua na sensibilização dos municípios. O desafio agora, segundo os gestores, é fazer com que os investimentos em infraestrutura e qualificação profissional cheguem à ponta, preparando as cidades para o fluxo de serviços e preparando jovens nas escolas para os postos de trabalho qualificados que a nova realidade logística vai exigir.
Confira o podcast completo:
Fonte RCN 67

