Investir em infraestrutura logística é fundamental para alcançar a competitividade
A infraestrutura logística do Chile encontra-se em um momento crucial de seu desenvolvimento. Em um país com forte vocação exportadora, o Chile mantém posições globais significativas em produtos como cobre e cerejas, além de consolidar sua presença nos mercados de lítio e salmão. Esse cenário é agravado por uma estrutura de importações altamente concentrada em produtos acabados, principalmente da Ásia, o que aumenta a pressão sobre os sistemas de transporte, armazenagem e distribuição.
Este cenário destaca a necessidade de um sistema logístico eficiente, resiliente e sustentável, capaz de manter a competitividade do comércio exterior chileno. No entanto, especialistas do setor concordam que ainda persistem lacunas estruturais e falta de coordenação institucional, afetando a produtividade e aumentando os custos logísticos.
A análise reúne as perspectivas de Anaiza Pusic Pavez, Vice-Presidente da WINS International e Head OMS SSA da DHL Global Forwarding , Antonio Dourthe, Coordenador do Programa de Desenvolvimento Logístico (PDL) do Ministério dos Transportes e Telecomunicações (MTT) , e Tómas Charlin Benavides, Vice-Presidente Executivo do Grupo Campos , que abordam o estado atual e os desafios do sistema.
Inovação, sustentabilidade e integração intermodal
A transformação da logística chilena se baseia em três pilares fundamentais: inovação tecnológica, sustentabilidade e integração intermodal. Na perspectiva de Anaiza Pusic, a digitalização começou a apresentar resultados concretos por meio do Plano de Logística Colaborativa (PLC) 2024-2025, implementado em doze sistemas logísticos estratégicos, incluindo dez portos estatais, o Porto Terrestre de Los Andes e o Aeroporto Arturo Merino Benítez.

“Foram abordados os problemas de congestionamento, segurança e facilitação do comércio exterior, aumentando o uso do terceiro turno em San Antonio (+7,5%) e Valparaíso (>10%) e os procedimentos antecipados em Valparaíso (45,6%) e PT Los Andes (27%), com o apoio da VUMAR: menos espera e maior rotatividade”, explica Pusic.
A isso se soma o avanço de ferramentas digitais como o SICEX, que visam reduzir os processos administrativos e integrar informações no comércio exterior. Ao mesmo tempo, a transição para tecnologias limpas começa a transformar a infraestrutura logística, com projetos focados em eletromobilidade e combustíveis alternativos. Entre os marcos recentes, destacam-se o primeiro caminhão movido a hidrogênio operado pelo Walmart no Chile e o caminhão elétrico de longa distância eActros 600, lançado pela Kaufmann em parceria com a CCU.
Pusic destaca que a integração intermodal continua sendo um desafio importante, descrevendo-a como “o multiplicador de eficiência” que ainda não está totalmente desenvolvido no país.
Nessa mesma linha, Antonio Dourthe argumenta que esses eixos são estruturais: “Para melhorar a infraestrutura logística e sua eficiência, é essencial incorporar aspectos-chave de inovação, sustentabilidade e integração intermodal, uma vez que são eixos estruturantes da estratégia de desenvolvimento do país e do planejamento do sistema logístico.”
O Plano Diretor Nacional de Logística estabelece objetivos específicos de interoperabilidade, visando aumentar a integração entre os operadores logísticos dos níveis atuais de cerca de 53% para 65% em 2040 e 80% em 2050. Isso reduziria os tempos de espera, o reprocessamento e os custos associados à falta de coordenação.
Em matéria ambiental, o plano prevê uma redução de 50% nas emissões do transporte de mercadorias até 2040 e a neutralidade carbônica até 2050, promovendo a mudança modal para o transporte ferroviário e marítimo.
Do setor privado, Tomás Charlin destaca a importância do uso eficiente do terreno logístico: “A integração de tecnologia, automação e intermodalidade nos permite reduzir atritos operacionais, metros mal utilizados e quilômetros desnecessários.”
Infraestrutura estratégica e nós críticos
O sistema portuário chileno movimenta aproximadamente 89% do comércio exterior do país, tornando-se o eixo central da cadeia logística nacional. Para Pusic, sua capacidade operacional é crucial: “O sistema portuário se posiciona como o eixo crítico do país.”
Essa rede é complementada por importantes corredores rodoviários, como a Rota 5, e vias de acesso aos portos, que conectam os centros de produção às áreas de embarque. O Aeroporto Arturo Merino Benítez também enfrenta crescente pressão operacional, enquanto a infraestrutura energética associada à logística verde desempenha um papel cada vez mais importante.
“Portos, rodovias, ferrovias, AMB e infraestrutura energética formam o núcleo que permitirá ao Chile se consolidar como um país moderno em logística”, acrescenta Pusic.
Antonio Dourthe elabora uma visão sistêmica: “A competitividade logística do país depende de um sistema de infraestrutura integrado, e não de ativos isolados”. Nesse contexto, ele menciona projetos como o Porto Exterior de San Antonio e as novas concessões em Iquique, Valparaíso, San Antonio e San Vicente.

O transporte ferroviário representa um dos principais desafios estruturais, respondendo por apenas cerca de 5% do transporte de mercadorias, bem abaixo dos padrões internacionais. “Precisamos fortalecer a multimodalidade, os terminais intermodais e as plataformas logísticas no interior”, destaca Dourthe.
Por sua vez, Charlin destaca que a disponibilidade de terrenos logísticos em áreas estratégicas é um fator determinante para a eficiência do sistema, e sua escassez gera aumentos diretos nos custos operacionais.
Desempenho logístico: indicadores e percepção
O desempenho logístico do Chile apresenta resultados mistos em comparações internacionais. De acordo com o Índice de Desempenho Logístico (LPI) de 2023, o país ocupa a 61ª posição entre 139 economias, com uma pontuação de 3,0 em 5. Esse resultado reflete deficiências na infraestrutura portuária, ferroviária e rodoviária, bem como na conectividade logística, e representa uma queda de 27 posições em relação a 2018.
No âmbito nacional, o Barômetro de Logística do Comércio Exterior de 2025 mostra uma percepção mais favorável. “65% dos operadores logísticos avaliam positivamente a infraestrutura nacional”, indica Pusic. Dourthe complementa essa visão, observando que o nível de satisfação aumentou de 45% para 65% em 2025.
Do setor privado, Charlin acrescenta que, embora a infraestrutura seja razoável, atrasos na emissão de licenças e restrições de uso do solo afetam diretamente a competitividade, aumentando o custo final do transporte de mercadorias.
Lacunas críticas no sistema logístico
As principais lacunas no sistema logístico chileno concentram-se em três áreas: intermodalidade, congestionamento e coordenação institucional.
Pusic destaca a falta de intermodalidade plenamente desenvolvida, enfatizando a escassez de portos multimodais e a falta de terminais ferroviários conectados à rede logística. Essa situação é agravada pelo congestionamento nos acessos portuários e nas passagens de fronteira, onde os gargalos persistem apesar das recentes melhorias.
Dourthe incorpora o fator de resiliência climática, observando que as interrupções operacionais devido às condições meteorológicas afetam particularmente os portos no norte e centro do país. Além disso, ele destaca a fragmentação institucional como um obstáculo significativo, propondo avanços rumo a uma maior integração da governança logística.
Charlin identifica a principal lacuna como a escassez de terrenos adequados para o desenvolvimento logístico em áreas estratégicas, o que aumenta os custos de armazenagem, transporte e operação.

Projetos estratégicos e desenvolvimento futuro
O desenvolvimento da logística chilena depende de investimentos significativos em infraestrutura portuária, ferroviária, rodoviária e digital. Pusic destaca o progresso em direção aos modelos “Port Call 4.0” e Janela Única 2.0, que permitiriam uma redução entre 25% e 40% nos tempos operacionais e administrativos.
Dourthe detalha um portfólio de investimentos superior a US$ 19 bilhões entre 2025 e 2050. Na Macrozona Central, US$ 8,563 bilhões estão concentrados em infraestrutura portuária, rodoviária e ferroviária, incluindo o Porto Exterior de San Antonio e o Terminal Intermodal de Barrancas.
Na Macrozona Norte, estão previstos US$ 4,886 bilhões para mineração, o corredor bioceânico e hidrogênio verde. Na Macrozona Sul, US$ 4,722 bilhões são destinados à infraestrutura florestal, rodoviária e ferroviária, incluindo a ponte ferroviária sobre o rio Biobío. A Macrozona Sul inclui US$ 1,210 bilhão para conectividade portuária e desenvolvimento logístico.
Charlin enfatiza que o desenvolvimento territorial regulatório continua sendo fundamental para garantir a implementação eficaz desses projetos.
Digitalização, dados e governança logística
A digitalização é um elemento fundamental para melhorar a eficiência do sistema. Ferramentas como o Barômetro Logístico e o Observatório Logístico permitem medir o desempenho e a percepção do sistema.
Pusic enfatiza que esses dados facilitam a tomada de decisões baseadas em evidências. Dourthe acrescenta que a integração digital entre os atores da cadeia de suprimentos é essencial para melhorar a produtividade e a confiabilidade operacional.
Rumo a uma logística mais integrada e competitiva
A análise conjunta demonstra que a competitividade logística do Chile depende não apenas da infraestrutura física, mas também da integração de todo o sistema. Inovação, sustentabilidade e intermodalidade emergem como pilares centrais para a redução de custos e o aumento da resiliência.
“O Chile está em um momento decisivo”, destaca Pusic. Dourthe conclui que a infraestrutura logística é um facilitador direto do desenvolvimento econômico, enquanto Charlin alerta que a escassez de terras continuará sendo um fator limitante se o seu desenvolvimento não for acelerado.
Fonte: Logística 360

