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Grupo RCN inicia série de entrevistas para aprofundar o debate sobre o Corredor Bioceânico

O Corredor Bioceânico começa a sair do campo das projeções e se consolida como uma das principais apostas para reposicionar Mato Grosso do Sul no comércio internacional. Para aprofundar o tema, o Grupo RCN inicia uma série especial de entrevistas com especialistas, autoridades e representantes do setor produtivo.

O primeiro episódio traz o gestor de negócios do escritório comercial de Tarapacá (uma das 16 regiões – Estado – do Chile) em Campo Grande, Fabio Roberto Cordeiro, que detalha os impactos práticos da rota, os desafios ainda existentes e as oportunidades que já começam a surgir.

Fabio Roberto Cordeiro nos estúdios da Massa FM Campo Grande – Foto: Fernando de Carvalho/Portal RCN67

Na prática, o corredor é uma ligação rodoviária intercontinental de mais de 2.300 quilômetros, conectando o Porto de Santos aos portos do norte do Chile, passando por Paraguai e Argentina.

Para o Estado, a nova rota representa uma mudança estrutural na forma de exportar e importar produtos.

“Mato Grosso do Sul hoje ocupa um local especial nesse processo. O Estado sai de um patamar mais isolado e passa a ser um hub logístico internacional estratégico dentro da América do Sul, afirmou Fabio.”

Nova lógica logística e redução de custos

Um dos principais ganhos apontados é a competitividade logística. Hoje, produtos sul-mato-grossenses percorrem longas distâncias até os portos do Atlântico, enfrentando gargalos operacionais e custos elevados. Com o Corredor Bioceânico, esse cenário muda.

“Hoje, para você sair pelos portos brasileiros, são mais de 7 mil quilômetros, com filas e custos elevados. Pela rota bioceânica, você tem uma queda de 15 a 17 dias e uma redução de cerca de 30% no valor do frete.”

Além da economia, o tempo menor de transporte impacta diretamente a qualidade dos produtos, especialmente alimentos, que chegam mais frescos aos mercados internacionais, principalmente asiáticos.

Exportações em alta e setores estratégicos

O avanço do corredor ocorre em um momento de crescimento das exportações estaduais. Segundo dados citados por Cordeiro, Mato Grosso do Sul atingiu US$ 10,7 bilhões em vendas externas, com forte concentração em commodities.

“A soja, a celulose, a proteína animal, o milho e o açúcar são os principais produtos. Só a China absorve cerca de 50% de tudo que o Mato Grosso do Sul exporta hoje.”

A tendência, segundo ele, é que o Estado avance na industrialização desses produtos, agregando valor e ampliando margens.

Zona franca e novas possibilidades de negócio

Um dos pontos estratégicos do corredor está na conexão com a região chilena de Tarapacá, onde funciona uma zona franca com mais de 50 anos e presença de empresas de diversos países.

O modelo permite operações comerciais com benefícios fiscais e tarifários, ampliando possibilidades para empresários brasileiros.

“Existe uma oportunidade muito grande de usar a zona franca para desenvolver produtos, fazer parcerias e acessar mercados que hoje não têm acordo direto com o Brasil, aponta Fabio.”

Apesar disso, a presença de empresas brasileiras na região ainda é considerada baixa, o que revela espaço para expansão.

Turismo e serviços entram no radar

Além da indústria e do agronegócio, o corredor também abre espaço para novos setores. O turismo é um dos exemplos mais imediatos, conectando diferentes biomas e experiências ao longo da rota.

“O turismo já está aberto. Falta conhecimento entre as partes, entre quem oferece e quem pode consumir esses destinos”

A integração entre países pode impulsionar viagens rodoviárias, intercâmbio cultural e novas rotas turísticas, incluindo o Pantanal, o Chaco paraguaio, o norte argentino e o deserto do Atacama.

Serviços ligados ao comércio exterior também devem crescer, como logística, tradução, tecnologia e consultoria.

Mineração, energia e indústria

Outro eixo de desenvolvimento envolve recursos naturais presentes ao longo da rota. A região concentra minerais estratégicos, como ferro, manganês, cobre e lítio — insumos fundamentais para setores como o de energia e veículos elétricos.

“Toda essa rota tem potencial mineral muito forte, com cobre, lítio e outros recursos que podem impulsionar novos investimentos e indústrias, explica Fabio.”

A possibilidade de atração de indústrias, inclusive ligadas à transição energética, é vista como um desdobramento natural, embora dependa de condições estruturais e regulatórias.

Gargalos ainda exigem ajustes

Apesar do avanço das obras, como a ponte entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, o corredor ainda enfrenta desafios para operação plena.

“A infraestrutura está praticamente pronta. O que falta agora é a questão aduaneira. Esse é o maior entrave no momento.”

Diferenças nas legislações dos países, regras logísticas e até limitações técnicas — como circulação de determinados tipos de caminhão — ainda precisam ser alinhadas.

Preparação começa agora

Para o setor produtivo, a recomendação é antecipação. Segundo Cordeiro, empresários que se prepararem antes da consolidação total da rota terão vantagem competitiva.

“Não espere a inauguração da ponte para ver o que vai acontecer. O momento de agir é agora. Quem se antecipar vai sair na frente”

Entre os passos indicados estão o mapeamento de rotas, simulações logísticas, qualificação de equipes e aproximação com mercados internacionais.

Novo papel de Mato Grosso do Sul

Na avaliação do especialista, o Estado tende a assumir um papel mais estratégico nos próximos anos, com crescimento das exportações e fortalecimento como centro logístico.

Porto Murtinho deve se consolidar como polo operacional, enquanto Campo Grande tende a concentrar serviços de apoio, como tecnologia, finanças e inteligência de mercado. Ao mesmo tempo, há um alerta sobre dependência comercial.

“Hoje a China já representa mais de 50% das exportações. Isso é positivo, mas também exige atenção. É importante diversificar parceiros”

Confira a entrevista na íntegra:

Fonte: RCN 67

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