Agua Negra na Argentina está de volta ao radar
Como é sabido, a Região de Coquimbo, no Chile, e a província de San Juan, na Argentina, mantêm laços sociais, políticos e comerciais há mais de três séculos, apesar da Cordilheira dos Andes. A primeira fundação da cidade de San Juan foi realizada por Juan Jufré de Loayza y Montesse, a mando de Francisco de Villagra, Capitão-General do Chile. Durante o período colonial, San Juan fazia parte do Corregimento de Cuyo, com capital na cidade de Mendoza, e da Capitania-Geral do Chile, que estava sob a jurisdição do Vice-Reino do Peru. Com a formação do Vice-Reino do Rio da Prata, em 1777, o Corregimento de Cuyo separou-se do Vice-Reino do Peru.
A necessidade de integrar comunidades em todo o mundo deu origem ao Paso de Água Negra, uma passagem de fronteira entre a Argentina e o Chile, localizada na Cordilheira dos Andes, entre o Departamento de Igreja, na província argentina de San Juan, e a Província de Elqui, na Região de Coquimbo, no município de Vicuña. Em San Juan, o passo liga a cidade de Las Flores (com 6.000 habitantes), no Departamento de Igreja — a 2 km do complexo de imigração e controle aduaneiro da fronteira e a 70 km de San José de Jáchal — à cidade de Huanta (com 3.500 habitantes), localizada a 90 km da fronteira internacional.
Devido à sua altitude, esta passagem está aberta durante a temporada de verão (dezembro a abril). No resto do ano, fica bloqueada pela neve. É a passagem de fronteira internacional mais alta entre a Argentina e o Chile, a uma altitude de 4.780 metros acima do nível do mar, e uma das mais altas do mundo, superada apenas pela Passagem Internacional de Karakoram (entre o Paquistão e a China), a 5.540 metros.
Atualmente, está prevista a construção de dois túneis que permitirão a comunicação interoceânica através dessa passagem.
Neste ponto do Corredor Bioceânico, gostaria de fazer uma pausa. Em 28 de agosto de 2009, durante a Cúpula da UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), os presidentes da Argentina, Cristina Fernández; do Chile, Michelle Bachelet; e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, assinaram um acordo para a construção do túnel que liga o Chile à Argentina através do Paso de Água Negra. O Corredor Bioceânico será uma rodovia trans-sul-americana que ligará o porto atlântico de Porto Alegre (Brasil) ao porto pacífico de Coquimbo, pela Rodovia 5 La Serena-Coquimbo (Chile), numa extensão de 2.513 km.
A importância dessa rota reside no fato de que o Cone Sul precisa inserir sua produção exportável no mercado mundial, tendo os mercados da Ásia-Pacífico como principal alvo. Isso levaria a um aumento no comércio, incentivando a produção para exportação nas áreas influenciadas pelo corredor.
A Entidade Binacional do Túnel Água Negra (EBITAN) é fundamental para este empreendimento. Criada em 2009 pela Lei 26.561, como parte do Tratado de Maipú de Integração e Cooperação entre a República Argentina e a República do Chile, a EBITAN promove o projeto e a construção de dois túneis principais semiparalelos para tráfego de veículos entre a província de San Juan e a Região de Coquimbo (Região IV), através da Cordilheira dos Andes. Este projeto completará o Corredor Bioceânico Central, conectando os portos de Porto Alegre (Brasil) e Coquimbo (Chile).
Em conjunto com a República do Chile, o Banco Interamericano de Desenvolvimento foi solicitado a financiar o projeto de concepção e construção do Túnel Internacional de Água Negra, propondo utilizar parte desses recursos para efetuar os pagamentos estipulados. Para a sua construção, a instituição realizou um processo de pré-qualificação de empreiteiras e empresas para o processo licitatório, em conformidade com as normas do BID.
Laboratório científico subterrâneo
Uma equipe internacional de cientistas sul-americanos realizou estudos e solicitou a instalação de um laboratório científico subterrâneo no ponto mais profundo do túnel. Este consistirá em um complexo de três cavernas contíguas onde experimentos de ponta poderão ser realizados em física de partículas, astrofísica, geofísica, biologia e ciências ambientais, entre outras áreas.
O laboratório, chamado ANDES (Agua Negra Deep Experiment Site), seria o terceiro mais profundo do mundo, a 1.750 metros abaixo da rocha, e o primeiro do gênero no Hemisfério Sul. Será gerenciado pelo Consórcio Latino-Americano para Experimentos Subterrâneos (CLES). Esse tipo de infraestrutura permite a realização de experimentos de alta sensibilidade, protegidos do bombardeio de raios cósmicos.
Por fim, entre as principais vantagens do túnel está o fato de que ele estaria aberto durante todo o ano, apesar do rigoroso inverno. Além disso, permitiria uma economia de até três horas no transporte de carga e passageiros. Tudo isso dentro do contexto de um processo de integração regional e da melhoria das economias locais.
Este será um dos treze túneis de montanha incluídos no projeto de integração física regional, em uma área com 20 milhões de habitantes e US$ 8 bilhões em exportações anuais. O túnel estabelece as bases para um corredor bioceânico com influência sobre o sul do Brasil, o Paraguai e o centro-norte da Argentina. Estimativas preliminares apontam um PIB regional de US$ 252 bilhões.
Claramente, os benefícios superam as desvantagens. Esta oportunidade não deve ser desperdiçada, especialmente considerando o contexto global de pandemia e recessão, que afeta a todos. Representaria um grande impulso econômico, de emprego e cultural para ambos os países, num contexto de mudanças políticas regionais.
Essa mudança também reflete um novo cenário político. Com a saída de Gabriel Boric e a possível ascensão de José Antonio Kast no Chile, a relação bilateral pode ser reconfigurada, aumentando o interesse do governo de Javier Milei em promover a integração, especialmente em áreas estratégicas como o corredor San Juan-Coquimbo.
Nesse contexto, o corredor bioceânico surge como um dos projetos com maior potencial geopolítico e econômico. Embora não tenha havido anúncios específicos sobre o túnel, a agenda binacional de infraestrutura reacende as expectativas sobre o seu futuro.
O projeto teve avanços intermitentes devido a fatores financeiros e políticos, mas continua sendo estratégico para províncias produtivas como San Juan, que buscam melhorar sua integração internacional.
O alinhamento político abre uma nova janela de oportunidades, embora o progresso dependa de definições concretas de financiamento.
O Paso de Água Negra voltou, portanto, ao radar político. Seu futuro dependerá da capacidade de ambos os países de traduzir o acordo estratégico em decisões operacionais.
No Chile, porém, surgiu uma alternativa: prosseguir sem o túnel para reduzir custos, priorizando a pavimentação da estrada existente. O Subsecretário de Obras Públicas, Nicolás Balmaceda, levantou essa possibilidade durante uma visita a Coquimbo, sem considerar plenamente o impacto estratégico que o túnel teria para ambos os países.
Fonte: Lic. Prof. Fernando A. Ocampo Bravo – Diário de Cuyo

