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3.200 km de estrada: o Corredor Bioceânico de Capricórnio ligará quatro países

Economizar até 17 dias no transporte marítimo para a Ásia. Essa é a promessa do Corredor Bioceânico de Capricórnio, a nova artéria logística que ligará Brasil, Paraguai, Argentina e Chile por meio de 3.200 quilômetros de rodovia e finalmente conectará os oceanos Atlântico e Pacífico sem a necessidade de pagar pedágios no Canal do Panamá.

O projeto, apoiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento ( BID ), visa reorganizar o fluxo de mercadorias das áreas produtivas do interior da América do Sul — Mato Grosso do Sul, Chaco paraguaio, Salta e Jujuy — para os portos chilenos de Antofagasta, Mejillones e Iquique , no norte do país . A rota começa no porto brasileiro de Santos e atravessa o coração do continente para transportar produtos agrícolas, minerais e bens manufaturados até o Pacífico.

Embora as manchetes possam sugerir um megaprojeto de 4.000 quilômetros, documentos técnicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Ministério da Economia do Chile ajustam o número: o corredor rodoviário prioritário ultrapassa 3.000 quilômetros . Essa é a distância real que será equipada com padrões uniformes de pavimentação, sinalização e, sobretudo, gestão aduaneira comum.

Um consórcio de quatro países com uma única alfândega virtual

O cerne do corredor não é apenas o asfalto. O foco principal é a harmonização aduaneira: unificar os procedimentos de travessia de fronteira para que um caminhão saindo do Brasil não precise passar horas em cada fronteira. De acordo com o Plano Diretor, que o BID financiará com uma doação de cooperação técnica não reembolsável de US$ 600.000, será definida uma “visão comum e consensual”, centrada na melhoria da facilitação do comércio, no desenvolvimento produtivo local e na conectividade digital.

O Chile, por sua vez, já identificou projetos específicos: a expansão do quebra-mar no porto de Antofagasta, no valor de US$ 39 milhões, e outras obras adicionais avaliadas em US$ 15 milhões. São investimentos modestos, mas demonstram o compromisso em garantir que o projeto não fique apenas no papel.

O desafio não é técnico, mas político. Coordenar dois governos nacionais, diversas províncias e estados subnacionais exige um nível de cooperação que a América Latina só viu em raras ocasiões. E o tempo, como sempre, está se esgotando.

Até 17 dias a menos para chegar à China e uma alternativa ao canal

A vantagem comercial é tangível: reduzir o tempo de transporte do interior da América do Sul para os portos asiáticos em até 17 dias. Atualmente, cargas como soja, carne, lítio e minerais da região central percorrem longas rotas até Santos ou Buenos Aires e, de lá, atravessam o Atlântico até o Cabo Horn ou o Panamá. Com o novo corredor, o acesso direto ao Pacífico reduz a distância de transporte para a China, o Japão e a Coreia do Sul em 15%.

A melhoria é significativa quando se consideram os gargalos no Canal do Panamá, que processa no máximo 36 navios por dia e sofre atrasos de três ou quatro dias. Embora o Corredor Bioceânico de Capricórnio não substitua o canal — seu formato é terrestre e portuário, não marítimo —, ele oferece uma alternativa complementar que alivia a pressão sobre a hidrovia da América Central.

Rota comercial Ásia-América Latina

A INTEGRAÇÃO ADUANEIRA É O VERDADEIRO ACELERADOR DO CORREDOR, E NÃO OS QUILÔMETROS DE ASFALTO.

Em paralelo, existe outro projeto chamado Corredor Rodoviário Bioceânico , que visa conectar Coquimbo (Chile) a Porto Alegre (Brasil) com um investimento estimado em US$ 10 bilhões. Este megaprojeto, concebido para atender aos padrões ferroviários ou mesmo multimodais, aspira competir diretamente com o Canal do Panamá. As duas iniciativas não competem entre si; pelo contrário, complementam-se, oferecendo aos exportadores do Cone Sul duas rotas alternativas para o Pacífico, dependendo se priorizam o volume ou a velocidade.

A análise de uma integração que precisa de resultados

É preciso cautela. A América Latina tem um longo histórico de cúpulas e corredores comerciais que nunca passam da apresentação em PowerPoint. A diferença aqui reside no pequeno impulso do BID e na maturidade do setor do agronegócio: o Brasil é o maior exportador mundial de soja ; a Argentina, de óleos e farelo; o Chile, de cobre e lítio. Todos precisam escoar seus produtos de forma rápida e barata. A demanda asiática não pode esperar.

No entanto, o sucesso do corredor depende de os quatro países concordarem em ceder a soberania aduaneira nas passagens de fronteira. Isso implica unificar as normas sanitárias, compartilhar bancos de dados de cargas e, o que é mais desagradável, dividir os custos de manutenção de uma estrada que beneficia alguns mais do que outros. Não é coincidência que o Plano Diretor ainda esteja em fase de projeto e que os investimentos concretos totalizem apenas US$ 55 milhões.

O Corredor Bioceânico de Capricórnio não será um Canal do Panamá terrestre, mas poderá se tornar a ponte logística que uma das regiões mais dinâmicas do continente espera há décadas. A questão não é se ele será construído, mas se os políticos estarão à altura do desafio.

Por Carmen Cuenca Forneas – Merca 2

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