Entre Rota Bioceânica e trens de soja, qual o futuro de Santos?
Quase em surdina, alguns projetos importantes saem do papel e viram realidade, no Brasil e no mundo. Uma realidade que o porto de Santos deveria com urgência considerar em seus planos de expansão.
Esta sequência de vídeos nacionais e estrangeiros mostra inaugurações parciais em projetos de grande envergadura, com potencial de mudar o futuro do “maior porto de carga geral da América Latina” para, talvez, ser “um dos maiores portos graneleiros” desta região do mundo. Será? Vejamos o que ocorre, usando como parâmetro de análise o interesse no futuro do porto santista e de seu entorno.
Comentamos estes projetos anteriormente. Os vídeos aqui indicados – quase todos publicados este mês no Youtube – atualizam tais informações. Somados, traçam um cenário consistente de como pode ficar o Brasil num novo cenário logístico internacional, em pouquíssimos anos mais.
Ignore as falhas evidentes dos programas com Inteligência Artificial usados na geração de voz e de algumas imagens. Por exemplo, ‘Kiki’ deve ser entendido como o porto chileno de Iquique. Tente entender ‘Rabi’ como a palavra inglesa ‘Hub’, que designa no caso um porto concentrador de cargas procedentes dos chamados ‘portos alimentadores’, não capacitados para receber navios de maior porte. E onde a I.A. disse ‘filhos’, compreenda como ‘silos’. Coitadas, as I.A.s são tão novinhas, ainda estão aprendendo, releve…
Os vídeos mostram que os cinco corredores bioceânicos avançam, apesar de dificuldades relacionadas com sua grandiosidade e com interesses contrários. Os lados brasileiro (desde Porto Murtinho) e paraguaio (desde Carmelo Peralta) da Ponte Bioceânica se uniram sobre o rio Paraguai na noite de 15 de julho, permitindo prever sua inauguração para janeiro/2027.
A ponte é o marco mais vistoso e avançado dessas obras, ligando o principal centro produtor de ‘carga conteinerizada’ do Brasil aos principais portos chilenos capacitados para estabelecer o segmento terrestre da chamada “Segunda Rota da Seda Chinesa”.
Em Mato Grosso, a iniciativa privada inaugurou em junho o primeiro de cinco trechos ferroviários que escoarão a soja de todo esse estado para Santos.
Então, o que teremos em poucos anos? Contêineres com carga geral deixando de ser movimentados em Santos por ser mais eficiente a ligação com a Ásia via Oceano Pacífico. E cargas recordes de soja chegando por ferrovia diretamente do Centro-Oeste ao porto santista.
Santos discute criar o terminal STS10, a dragagem de aprofundamento do canal de navegação e – bem remotamente ainda – um terminal ‘offshore’ para complementar o porto atual, permitindo duplicar a movimentação de contêineres e recepcionar navios de maior porte. Mas, o que acontecerá se na verdade o movimento de carga geral conteinerizada se estabilizar ou até recuar, com o novo caminho direto do interior brasileiro para o Pacífico?
Inversamente, com mais disponibilidade ferroviária alcançando Santos, a Baixada Santista terá que resolver logo outros gargalos para um grande crescimento nesse modal de transporte de granéis agrícolas. Mas, os supergraneleiros do futuro próximo conseguirão operar em Santos em plena capacidade, considerando largura e profundidade do canal de navegação?
Talvez já existam respostas prontas nas gavetas, mas se as próprias perguntas não parecem estar sendo feitas, serão esses projetos adequados para a Baixada Santista? O que significará economicamente mudar de uma estrutura voltada à carga geral para outra, voltada aos granéis agrícolas?
Mesmo entendendo que ambas coexistem há décadas, alterar a proporção entre carga conteinerizada e granéis significa investir em equipamentos específicos, treinamento, tudo dentro de uma dinâmica adaptada a um volume muito maior de cargas – com valor agregado bem reduzido.
Compare o valor de um contêiner com equipamentos eletrônicos, pesando 28 toneladas, com o mesmo peso em soja: o frete é o mesmo? O custo do trabalho e dos equipamentos envolvidos se equivale para contêineres ou granéis? Não. Pois é.
Existem outros aspectos a considerar. Será efetivamente evitada a poluição atmosférica resultante da movimentação adicional de granéis? A carga geral fluirá em nível suficiente para manter as estruturas locais de armazenagem e reparo de contêineres, despacho, transporte intraporto, agenciamento, operação portuária e outras atividades de apoio?
Também, a população não esquece os efeitos dos picos de safra agrícola nas estradas da região, o famoso caos nas rodovias. Ok, essas cargas virão por ferrovia. Acreditemos que os obstáculos ambientais e técnicos à ampliação da rede de transposição da Serra do Mar estejam equacionados.
Ainda assim, trens com uns 100 vagões já paralisam rotineiramente o trânsito urbano, despreparado para superar integralmente passagens em nível travadas por uma hora ou mais. Se um ‘simples’ túnel intermunicipal, projetado no auge do tempo dos bondes da Velha República, demora 100 anos para acontecer, todas essas travessias sob ou sobre o leito ferroviário demandarão quanto tempo para surgir, se sequer estão projetadas? Aliás, quem pagará a enorme conta dessa verdadeira reforma urbana?
Veja mais: Santos, no centro do alvo? – Portogente, 10/9/2025
Ah, problema dos santistas, eles que se entendam. Mas, se Santos não der conta dessas mudanças, as cargas fluirão para os portos vizinhos, levando os problemas junto. Por falar em problemas, o Corredor Bioceânico Capricórnio, que passará pela nova ponte Brasil-Paraguai, não seria também um motivo a mais facilitando o êxodo da indústria nacional rumo ao vizinho país?
Mais: como seremos afetados, com os EUA tentando desesperadamente retomar o controle de seu ‘quintal’, forçando a ampliação da sua influência em países vizinhos ao Brasil; com a Argentina dançando um tango dissonante (de consequências nefastas para ela e toda a América do Sul); com uma justa necessidade de se avaliar a participação chinesa na infraestrutura logística, frente aos interesses econômicos sulamericanos…?
O objetivo deste questionário é induzir a reflexão sobre as mudanças que acontecerão nestes próximos cinco anos – um verdadeiro piscar de olhos – e o que precisa ser imediatamente feito para que elas cheguem ao porto santista e ao país como um benefício real em termos econômicos e sociais. Será ótimo se, após essa análise, pudermos concluir que estamos no caminho certo.
Fonte: Portogente

