Alejandro Safarov: “Jujuy tem uma oportunidade extraordinária”
Como está mudando o cenário internacional e quais oportunidades específicas a Jujuy pode aproveitar para entrar em novos mercados?
Estamos entrando em um mundo geoeconômico muito mais fragmentado, competitivo e polarizado. Empresas e países não buscam mais apenas os locais de produção mais baratos: buscam segurança, energia, minerais críticos, alimentos, conectividade e cadeias de suprimentos confiáveis. E Jujuy tem uma oportunidade extraordinária nesse sentido. Por muitos anos, nos vimos sob a perspectiva da periferia da Argentina. Acredito que agora devemos começar a nos enxergar a partir de nossa posição central na América do Sul.
Jujuy está próxima do Chile, da Bolívia e do Paraguai, conectada ao Brasil pelo Corredor Bioceânico de Capricórnio e possui acesso estratégico a portos do Pacífico. A cidade tem atividades de mineração, lítio, energia solar, produção agroindustrial, turismo, uma economia do conhecimento e uma localização geográfica excepcional.
Por isso falo do Mercosul periférico: territórios que historicamente estiveram distantes dos principais centros econômicos, mas que hoje possuem recursos, fronteiras, corredores logísticos e capacidades de que o mundo precisa.
A oportunidade para Jujuy não é simplesmente exportar mais. É tornar-se um centro de conexão entre o Atlântico e o Pacífico, entre o Mercosul e a Ásia, e também entre a América do Sul e a Europa. Portanto, a principal mudança de mentalidade deve ser:
Jujuy precisa se perguntar que lugar deseja ocupar no novo mapa econômico mundial.
A tecnologia é um fator estratégico para o crescimento. O que a Jujuy deve fazer para incorporar inovação e tecnologia e melhorar a competitividade de suas empresas?
Primeiramente, precisamos esclarecer uma ideia: inovação não se resume a ter empresas de software. Tecnologia também significa transformar uma PME tradicional.
Trata-se de inteligência artificial aplicada à produção, rastreabilidade, automação, comércio eletrônico, logística inteligente, agricultura de precisão, mineração 4.0, energias renováveis, análise de dados e digitalização de processos administrativos.
Proponho uma estratégia provincial para a transformação digital das PMEs.
Que uma pequena empresa em Jujuy possa ter acesso a ferramentas tecnológicas, treinamento, inteligência de negócios e assistência à exportação. E eu acrescentaria algo fundamental: aproveitar o Corredor Bioceânico não apenas como uma rodovia.
Precisamos começar a pensar em um corredor bioceânico digital.
Caminhões e mercadorias percorrerão essa rota, mas informações, dados, serviços, conhecimento, tecnologia e oportunidades de negócios também devem estar circulando.
Jujuy, com seu potencial, pode competir por meio de especialização, velocidade, conhecimento, conectividade e adaptabilidade.
Qual o papel da educação e do desenvolvimento de recursos humanos em um mundo onde as novas tecnologias estão transformando rapidamente os empregos e as indústrias?
Este é provavelmente um dos maiores desafios da nossa geração. O sistema educacional era organizado em torno de uma lógica bastante linear: você estudava, obtinha um diploma, conseguia um emprego e exercia essa profissão por boa parte da sua vida. Esse mundo está mudando.
A inteligência artificial e a transformação tecnológica estão reduzindo drasticamente a vida útil de certas habilidades. Por isso, acredito que precisamos migrar de uma educação focada exclusivamente em conteúdo para uma educação verdadeiramente baseada em habilidades, como sugere a autora Gabriela Ter Hart. Seguindo a linha de raciocínio dessa especialista, precisamos desenvolver habilidades técnicas, digitais, linguísticas e profissionais, mas também pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas, liderança, comunicação, adaptabilidade e aprendizado contínuo.
Em uma província bioceânica, eu acrescentaria também algo estratégico: idiomas. Português para uma integração muito mais profunda com o Brasil; inglês para negócios e tecnologia global; e progressivamente outros idiomas ligados aos mercados asiáticos, sendo certamente o mandarim o mais adequado.
Como Jujuy pode avançar rumo a uma maior produção local e gerar valor agregado a partir de seus recursos, pensando não apenas no mercado interno, mas também nas exportações?
Devemos evitar um erro histórico da América Latina: ser extraordinariamente rica em recursos e, ao mesmo tempo, exportar grande parte desses recursos com pouco ou nenhum processamento. O lítio é um bom exemplo. O mundo está aumentando sua demanda por minerais críticos, e a América Latina tem uma oportunidade excepcional. Mas o verdadeiro desafio não é apenas extrair minerais; é construir cadeias de valor em torno deles.
Isso significa fornecedores locais de mineração, serviços tecnológicos, laboratórios, engenharia, manutenção, software, logística especializada, pesquisa, treinamento e, quando as condições econômicas e tecnológicas permitirem, etapas adicionais de industrialização. A mesma lógica se aplica às nossas outras atividades.
Precisamos ir além da simples venda da produção primária, abrangendo alimentos processados, produtos regionais com identidade própria, serviços associados, tecnologia, design e conhecimento especializado. Precisamos fazer uma transição progressiva de uma economia baseada exclusivamente em recursos naturais para uma baseada em recursos, conhecimento, habilidades e tecnologia. Para alcançar esse objetivo, precisamos desenvolver sistemas de produção integrados: mineração, energia, agronegócio, turismo, logística e a economia do conhecimento devem deixar de ser vistos como setores isolados.
CORREDOR BIOCEANICO | UNINDO COMÉRCIO, INDÚSTRIA E CULTURA.
Que alianças e ligações com outros países poderiam ser estratégicas para Jujuy em termos de tecnologia, educação e indústria?
Não creio que Jujuy deva escolher um único parceiro internacional. No cenário atual, precisamos praticar o que, em Relações Internacionais, poderíamos chamar de estratégia de engajamento pragmática e multifacetada.
O Brasil deve ter prioridade. Particularmente os estados ligados ao Corredor Bioceânico, pois possuem enorme capacidade industrial, empresarial, tecnológica e acadêmica.
O Chile é estratégico devido aos seus portos no Pacífico e à nossa ligação com Antofagasta e Tarapacá, cuja capital, como sabemos, é Iquique. O Paraguai é fundamental para completar a arquitetura territorial do corredor. E depois temos de olhar muito mais longe.
Os países da União Europeia podem ser parceiros importantes na indústria, tecnologia, energias renováveis, formação profissional, normas de produção e transferência de tecnologia. Além disso, o acordo UE-Mercosul abre um cenário que devemos começar a estudar a partir das províncias, e não apenas de Buenos Aires.
O Japão e a Coreia do Sul são particularmente interessantes em termos de tecnologia, indústria, educação e inovação. A China e a Índia representam mercados, investimentos e uma escala econômica que a América do Sul não pode ignorar, e já estão investindo na região.
Mas as relações internacionais de Jujuy não devem se limitar às relações entre governos. Precisamos conectar: universidade com universidade, empresa com empresa, câmara de comércio com câmara de comércio, município com município e polo tecnológico com polo tecnológico. Isso é paradiplomacia, e acredito que é aí que reside uma das grandes oportunidades do futuro. Por muito tempo, pensamos que a política internacional era domínio exclusivo dos ministérios das relações exteriores.
Hoje, uma província competitiva também precisa desenvolver inteligência internacional, diplomacia econômica e sua própria estratégia de integração internacional.
Se eu tivesse que resumir tudo isso em uma única ideia, eu diria:
Jujuy tem uma oportunidade histórica de deixar de ser vista como o extremo norte da Argentina e passar a ser vista como um dos pontos de encontro da América do Sul.
A verdadeira diferença virá, sobretudo, de Jujuy aprender a interagir com o mundo.
Fonte: El Tribuno de Jujuy

