ZICOSUL: propõe a criação urgente de um Corredor Bioceânico Duplo no Trópico de Capricórnio para impulsionar o comércio
Em entrevista ao jornal La Mañana, o engenheiro José Sesma, especialista em infraestrutura e coautor, juntamente com o topógrafo Miguel Yancovich, da versão preliminar argentina do Corredor Bioceânico ZICOSUL, enfatizou a urgência de os governos da região avançarem com acordos concretos e projetos estratégicos que conectem de forma eficiente a Argentina com outros países do continente, agilizando o comércio ao reduzir custos e tempos de transporte.
Dentro de sua proposta — que conecta os portos de Antofagasta e, principalmente, Arica (Chile) a Porto Alegre (Brasil), com foco no Trópico de Capricórnio — a província de Formosa ocupa uma posição estratégica, em conjunto com as demais províncias que compõem a região Nordeste Asiático.
Vale lembrar que a ZICOSUL (Zona de Integração do Centro-Oeste da América do Sul) é um fórum internacional fundado em 1997 que reúne mais de 70 governos subnacionais da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. Seu objetivo é promover a integração regional, o desenvolvimento sustentável e a competitividade econômica por meio da articulação de eixos de comunicação e corredores bioceânicos.
Para Sesma, a integração física sul-americana depende não apenas de acordos comerciais ou declarações políticas, mas também da efetiva implementação de tratados internacionais e do planejamento sério de infraestrutura multimodal moderna.

“Os Corredores Bioceânicos no Trópico de Capricórnio representam uma oportunidade estratégica para o ZICOSUL, desde que sejam desenvolvidos com uma visão abrangente, dual e sustentável”, afirmou.
Nesse sentido, enfatizou que a construção de pontes ferroviárias e rodoviárias como nós estratégicos, a plena operação das hidrovias, a implementação de reservatórios compensatórios e o cumprimento dos compromissos assumidos nos tratados da Bacia do Rio da Prata, Itaipu e Yacyretá — ratificados por leis nacionais — são condições essenciais para que a região se integre competitivamente ao comércio global, tanto com o Pacífico quanto com o Atlântico.
Sesma sustentou que, embora o foco tradicional tenha sido o acesso aos portos do Pacífico para abastecer a Ásia, agora é essencial ampliar a perspectiva estratégica. “A Ásia é o continente mais populoso do planeta, com aproximadamente 4,84 bilhões de habitantes. A Índia, com 1,464 bilhão, também tem uma população jovem, o que a torna um mercado com enorme potencial. A China, com 1,416 bilhão, continua sendo um ator-chave, embora com uma população envelhecida”, explicou ele.
Ao mesmo tempo, destacou que a recente assinatura do acordo comercial entre o MERCOSUL e a União Europeia — finalizado em 17 de janeiro de 2026, em Assunção, após mais de 25 anos de negociações — abre uma oportunidade estratégica em direção ao Atlântico e ao mercado europeu.
Em termos comparativos, indicou que o continente americano tem aproximadamente um bilhão de habitantes, enquanto a União Europeia tem cerca de 450 milhões. “Esses números nos permitem determinar onde é aconselhável priorizar os esforços comerciais, sem negligenciar nenhuma das frentes”, afirmou.
No âmbito legislativo, Sesma revelou que foram apresentados projetos de lei no Congresso Nacional para a instalação de uma linha férrea de Formosa a Resistencia (Chaco) e outra até Laguna Limpia (Chaco), esta última com menos de 100 quilômetros de extensão. “Essa conexão permitiria que Formosa utilizasse tanto a Rodovia 11 quanto a ferrovia Belgrano Cargas para se integrar ao sistema logístico nacional, alcançar os portos de Zárate ou Buenos Aires e, por meio do Corredor Bioceânico Duplo, estender seu alcance a Resistencia, Salta e aos portos do Chile e do Peru. Isso ampliaria consideravelmente as possibilidades de desenvolvimento da província”, enfatizou.
Em relação ao transporte fluvial, ele destacou a necessidade de cumprir integralmente o Tratado da Bacia do Rio da Prata (1969), que estabelece a livre navegação e o uso racional dos rios compartilhados, bem como os compromissos assumidos no Ato de Santa Cruz de la Sierra e nos tratados de Itaipu e Yacyretá.
Ele enfatizou ainda que, para garantir a navegabilidade do Rio Paraná a jusante de Yacyretá, é essencial a construção da Barragem de Compensação estipulada no tratado, a fim de evitar secas severas, flutuações abruptas no nível do rio e danos tanto à navegação quanto ao ecossistema.
“A infraestrutura precede o desenvolvimento. As indústrias se instalam onde há portos, ferrovias e rodovias. Portanto, os Corredores Bioceânicos devem ser concebidos como eixos duplos e multimodais — ferroviário e rodoviário — e não como meras rotas lineares”, enfatizou.
Por fim, o especialista observou que os fundamentos técnicos e estratégicos dessa iniciativa são desenvolvidos em profundidade no livro “A Integração da América”, do qual é coautor com Miguel Yancovich.
“Se o Grande Norte decidir investir em infraestrutura estratégica, Formosa pode se tornar uma porta de entrada para a integração entre oceanos e mercados. Se adiar essas decisões, permanecerá um território de trânsito e não um líder. A escolha não é geográfica: é política e estratégica”, afirmou.
Fonte: La Mañana Online

