Um corredor bioceânico duplo para a integração das Américas será tema de uma conferência na UNI em Itapúa
O engenheiro José Sesma, renomado especialista em infraestrutura, propõe um corredor duplo rodoviário e ferroviário para o Corredor Bioceânico de Capricórnio, uma rede rodoviária que busca conectar as costas do Oceano Atlântico, no Brasil, com o Oceano Pacífico, no Chile.
Sua proposta, contida no livro “A Integração da América”, de autoria do engenheiro José Sesma e do agrimensor Miguel Yancovich, foi apresentada nesta sexta-feira, 12 de setembro, às 10h, na Universidade Nacional de Itapúa (UNI), na vizinha República do Paraguai.
Durante a conferência, promovida pela UNI e pela Governadoria de Itapúa, Sesma apresentaou sua pesquisa, que argumenta que um corredor bioceânico é insuficiente para alcançar o desenvolvimento integral no Cone Sul.
Análise e proposta
Sesma argumenta que um único corredor é insuficiente para uma melhor integração da região e propõe a viabilidade de adicionar uma rede ferroviária conectando os oceanos Atlântico e Pacífico através das províncias do norte da Argentina, conectando-se com o Chile e o Peru.
Tanto o projeto paraguaio quanto o argentino são necessários e essenciais para o desenvolvimento regional, embora nenhum deles, por si só, seja suficiente para garantir a integração plena no Trópico de Capricórnio, afirma.
O autor argumenta que os corredores bioceânicos duplos no Trópico de Capricórnio poderiam ser considerados o “Panamá terrestre” do século XXI, por onde matérias-primas e produtos poderiam ser movimentados quase em linha reta entre os portos de Santos ou Porto Alegre (Brasil) e Xangai (China), reduzindo os custos logísticos em até 45%.
Ele cita dados técnicos do Ministério do Planejamento do Brasil, que sugerem uma economia de 10 mil quilômetros por viagem e até quatro semanas de navegação entre os portos de Santos ou Porto Alegre e Xangai.
Espelho da integração
Os corredores duplos no Trópico de Capricórnio são, acima de tudo, um espelho: eles mostram quanta integração é possível com o financiamento certo, tecnologia e visão de longo prazo, diz Sesma.
“Ao comparar os impactos, o projeto evoca o Canal do Panamá de 1914, o projeto que inaugurou o século americano, só que agora Pequim está no comando. A Ásia financia; Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai contribuem com o volume de carga; Chile e Peru oferecem acesso ao Pacífico”, argumenta o pesquisador em artigo publicado no jornal chaquenho “Chaco Day by Day”.
O projeto propõe conectar rodovias, hidrovias e redes ferroviárias existentes na Argentina, Chile, Brasil, Peru e Uruguai, adicionando novos trechos de fronteira, escalando a cordilheira e conectando-se a portos de águas profundas, como Chancay (Peru) ou o futuro megaporto de Corío, em Arequipa.
O projeto também tem um forte componente ambiental, pois “cada tonelada que passa do caminhão para o trem reduzirá as emissões de CO2 do transporte em 85%”, disse ele.
A verdadeira promessa do Corredor Duplo Bioceânico deve ser abraçada como uma política de Estado pelos países que o atravessam; significa unir nações que historicamente se afastaram. “Da Guerra do Pacífico à inacabada ZICOSUL, a fragmentação continental tem sido um obstáculo crônico”, afirma.
A Zicosul (Zona de Integração Centro-Oeste da América do Sul) é um fórum supranacional horizontal composto por províncias da Argentina, estados do Brasil, departamentos da Bolívia, regiões do Chile e regiões do Peru e Paraguai.
Seu objetivo é promover a integração, a cooperação, o desenvolvimento socioeconômico e o desenvolvimento de infraestrutura na região Centro-Oeste da América do Sul.
Infraestrutura e desenvolvimento
Sesma afirma que, se a experiência asiática nos ensina alguma coisa, é que a infraestrutura precede o desenvolvimento: as fábricas chegam onde há portos, trens e estradas, e que com os Corredores Ferroviários Bioceânicos no Trópico de Capricórnio, a América Latina pode dar o “salto decisivo”.
A China não oferece prosperidade de graça, mas oferece a plataforma para alcançá-la. O desafio é transformar esses corredores em catalisadores para cadeias produtivas, garantir regulamentações ambientais rigorosas e exigir a participação local na tomada de decisões, afirma o especialista.
Ele acrescenta que “a América Latina não deve escolher lados”, mas sim unir forças para desenvolver estradas, hidrovias e redes ferroviárias com a maior diversidade possível de financiadores.
Diversificar parceiros e rotas não é ideologia, é pragmatismo. Não se trata de capitalismo ou comunismo, nem de direita ou esquerda: submeter o projeto a uma visão ideológica só levará ao fracasso, ressalta.
A competição pode se transformar em um ganho mútuo se for gerida com licitações transparentes, cláusulas de transferência de tecnologia e padrões ambientais rigorosos. Mas o momento certo é importante: enquanto o Ocidente debate, a Ásia constrói, argumenta o autor.
Fonte: A Tribuna e Chaco dia por dia

