Trem Bioceânico: Projeto Estratégico em Avaliação, por Rafael Torres Morales
Nos últimos meses, o debate em torno do projeto do trem bioceânico, que visa conectar os oceanos Atlântico e Pacífico, ganhou novo impulso. Essa ambiciosa iniciativa, concebida como uma infraestrutura fundamental para impulsionar o comércio entre a América do Sul e a Ásia, ganhou força após a assinatura, há poucos dias, de um memorando de entendimento entre o Brasil e a China para avaliar a viabilidade técnica, econômica e operacional de uma das possíveis rotas deste corredor ferroviário.
Embora este acordo tenha sido assinado sem a participação direta do governo peruano, é importante ressaltar que se trata apenas de uma fase preliminar de estudos, sem implicações executivas ou impacto sobre a soberania nacional. Caso os resultados desses estudos sejam positivos, o projeto poderá ser apresentado oficialmente ao Estado peruano, ficando a critério do nosso país analisar sua incorporação de acordo com seus interesses estratégicos e princípios de soberania.
Em relação ao traçado da futura ferrovia, diversas alternativas estão sendo consideradas. No entanto, a opção mais viável é aquela que aproveita a infraestrutura de conectividade existente, em particular o eixo rodoviário IIRSA Sul, que conecta o porto de Matarani à fronteira amazônica em Iñapari. Esse corredor consolidado não apenas representa uma base logística eficiente, como também superaria um dos principais obstáculos atuais: a oposição de comunidades nativas e organizações ambientais à construção de novas infraestruturas em áreas sensíveis da Amazônia.
Aproveitar uma rota já desenvolvida não apenas otimiza custos e tempo, como também minimiza o impacto ambiental e social, evitando a abertura de novas frentes de intervenção. A mesma abordagem — como aprendemos por meio da Câmara Brasil-Peru e do fórum internacional realizado em 26 de junho, organizado por nossa Câmara — seria adotada do lado brasileiro, alinhando esforços em torno de rotas já estabelecidas.
A possível implementação do trem bioceânico, portanto, representa uma oportunidade sem precedentes para o Peru. Diversificará as rotas comerciais para a Ásia — evitando a dependência do Canal do Panamá ou de rotas marítimas mais longas pelo extremo sul do continente — e fortalecerá as exportações de produtos agrícolas, minerais e manufaturados, especialmente de regiões atualmente excluídas do circuito logístico internacional.
Estima-se que essa infraestrutura possa movimentar até 40.000 toneladas de carga diariamente (principalmente produtos agrícolas de diversas regiões do centro e oeste do Brasil, como soja, milho e açúcar), com altos padrões de eficiência e custos competitivos. Se implementada, o impacto será transformador: gerará milhares de empregos diretos e indiretos, impulsionará as economias regionais, atrairá capital privado e posicionará o Peru como um polo logístico no Pacífico Sul, com o megaporto de Chancay como um polo estratégico para a exportação de mercadorias para a Ásia.
Embora seu desenvolvimento enfrente desafios significativos — técnicos, regulatórios e ambientais — a execução do projeto poderá redefinir um papel importante do Peru e da América do Sul no comércio global. É essencial que o país adote uma postura proativa, estratégica e soberana em cada etapa desse processo de integração continental. O Peru deve se unir a esse esforço para que esse importante projeto de conectividade se torne realidade e não se torne, mais uma vez, uma perda significativa.
Rafael Torres Morales – Presidente da Câmara de Comércio Brasil-Peru – Portal Jornal GGN

