Travessia entre MS e Paraguai avança e pode mudar o rumo das exportações brasileiras
No meio do Pantanal, entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (Paraguai), uma estrutura de concreto começa a emergir sobre o Rio Paraguai. A ponte bioceânica, que já se desenha na paisagem, é um dos projetos mais ambiciosos da logística sul-americana. Prevista para ser concluída em 2026, a travessia faz parte do Corredor Bioceânico de Capricórnio, uma rota rodoviária que cruzará Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, encurtando o caminho da soja, do milho e da carne brasileira até os portos do Oceano Pacífico.
A lógica é simples: em vez de depender exclusivamente dos portos do Atlântico, os produtos sul-mato-grossenses terão a opção de seguir para Antofagasta, no Chile, e de lá para os mercados asiáticos, especialmente a China. Na prática, isso significa menos tempo e menos custos para as exportações.
O projeto, que já movimenta o comércio e o urbanismo nas cidades fronteiriças, terá 1.294 metros de extensão e se divide em três trechos: dois viadutos de acesso e uma parte estaiada de 632 metros, com um vão central de 350 metros. Até agora, o contato entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta era restrito a balsas e pequenas embarcações – um sistema lento e dependente do humor do rio.
Obra do Corredor Bioceânico, que vai ligar 4 países (Foto: Toninho Ruiz)
Fronteira em transição – Porto Murtinho, uma cidade de 12,8 mil habitantes, sempre foi um ponto de passagem discreto. Mas, nos últimos anos, tenta se reinventar como peça central do novo corredor comercial. O município se autodenomina “o novo Canal do Panamá”, e a ponte faz parte dessa narrativa.
Do outro lado do rio, Carmelo Peralta, um pequeno município paraguaio com cerca de 4 mil moradores, também vive a expectativa de um crescimento econômico acelerado. Para o Paraguai, a ponte é um atalho direto ao Brasil, um de seus principais parceiros comerciais.
E a transformação não para ali. O Paraguai já anunciou a construção de uma segunda ponte sobre o Rio Pilcomayo, na divisa com a Argentina, para dar vazão ao fluxo rodoviário que a nova rota criará. A obra, que ligará Pozo Hondo (Paraguai) a Misión La Paz (Argentina), será bancada integralmente pelo governo paraguaio.
Ponte sobre o Rio Pilcomayo, na fronteira do Paraguai com a Argentina (Foto: Toninho Ruiz)
O Corredor Bioceânico é um projeto que mexe com interesses geopolíticos. Brasil e Paraguai enxergam na iniciativa uma oportunidade de se consolidar como hubs logísticos para a América do Sul. Do outro lado da rota, o Chile se posiciona como o grande beneficiado, ao oferecer seus portos como porta de saída para as exportações do bloco.
A ponte bioceânica é, portanto, mais do que uma simples travessia sobre o Rio Paraguai. Ela simboliza uma mudança na forma como os países sul-americanos se conectam e fazem negócios. Para Porto Murtinho e Carmelo Peralta, será um divisor de águas – no sentido mais literal possível.
Fonte: A Crítica