Rodrigo Cuturrufo atravessa os Andes e leva seu jazz ao Festival Nacional de San Juan
O Festival Nacional de Jazz de San Juan de 2026 contará com uma apresentação repleta de história, identidade e emoção. O trompetista chileno Rodrigo Cuturrufo chegará à província com seu projeto Cutus Clan para participar da noite de abertura do festival, que acontecerá na sexta-feira, 13 de fevereiro, e no sábado, 14 de fevereiro. Em entrevista ao DIARIO HUARPE, o músico descreveu sua participação como “uma emoção imensa” e adiantou uma proposta artística que mescla jazz, raízes andinas e memórias familiares.
O evento, organizado pela Fundação Circuito Argentino de Jazz e apoiado pelo Ministério do Turismo, Cultura e Esporte, terá dois dias complementares: um primeiro dia com entrada gratuita no Chalet Cantoni e uma segunda noite com entrada paga no Teatro Bicentenário, apresentando artistas de renome internacional.
“Tanto esforço e, de repente, já estávamos programados”
Cuturrufo estará presente no dia da abertura, onde dividirá o palco com músicos locais e figuras de destaque do jazz argentino. Sua chegada a San Juan não foi acidental nem imediata. “Eu vinha lutando, tentando me conectar com San Juan há muito tempo”, contou. “Passaram-se um ou dois anos até que, de repente, tudo se encaixou. Depois de tanto esforço, do nada percebemos que já estávamos programados, com cartaz e programação, para este festival.”
O trompetista destacou o papel do Circuito Argentino de Jazz e a ideia de construir um corredor cultural entre festivais. “Tem a ver com o corredor bioceânico, com a união de festivais, criando uma cadeia. Vamos atravessar o Paso de Água Negra, então cruzar os Andes para tocar jazz é extremamente emocionante para nós”, disse ele.
Uma viagem com memórias em família
A apresentação em San Juan também terá um forte componente pessoal. Cuturrufo lembrou que seu pai desenvolveu parte de sua carreira artística na província durante a década de 1970, apresentando-se em palcos em San Juan, Córdoba e Buenos Aires. “Na década de 1970, meu pai foi para San Juan e construiu toda a sua carreira aqui. Ele se apresentou no rádio, em carnavais e em shows. Ele seguiu o mesmo caminho que vamos trilhar agora”, disse ele.
“Meu pai faleceu há dois anos, e refazer essa jornada é muito intenso. É como seguir os passos dele, mas no jazz. Estamos tentando, mais uma vez, abrir palcos, abrir portas, mas de uma perspectiva diferente”, disse ele.
Jazz, raízes andinas e uma identidade compartilhada
A apresentação do Cutus Clan no Festival será centrada em uma obra que combina estruturas de jazz com sons ancestrais andinos. “A música que estamos trazendo tem muito a ver com San Juan”, afirmou Cuturrufo. “São os meus sons, mas também os seus sons.”
O músico explicou que seu trabalho é inspirado em danças chinesas e festivais religiosos como o da Virgem de Andacollo, cujo culto chegou a San Juan por meio da transumância. “A música que toco é baseada nos sons das danças chinesas, e eu a misturo com jazz e funk. Tudo é permeado por um som andino muito insistente, muito característico desta região”, explicou.
“Em San Juan, há um número enorme de festivais ligados a esse culto. É por isso que sinto que o que vamos tocar se conecta diretamente com a sua identidade”, acrescentou.
“O jazz permite que todas as identidades se expressem”
Com quase quatro décadas de experiência, Cuturrufo enfatizou a natureza universal do gênero. “O jazz é uma composição que permite a adaptação a todos os ritmos, todas as etnias e todas as classes sociais. Essa é a sua grandeza”, observou. “Ele sempre nasce das margens, mas tem um enorme poder de expressão.”
Embora tenha esclarecido que não se define estritamente como músico de jazz, enfatizou que sua vida tem estado ligada ao gênero tanto por meio de apresentações quanto de produção cultural. “Organizamos festivais de jazz, produzimos e convidamos músicos do mundo todo há quase 40 anos. Mas meu papel sempre foi o de dar sustentação a esse jazz, de criar raízes profundas”, explicou.
Essa raiz, explicou ela, também se conecta à sua própria história ancestral. “Meu sobrenome tem origem em um grupo étnico andino. Nossas origens mais próximas estão em território argentino. É por isso que atravessar os Andes é como um cordão umbilical, como retornar para me nutrir dessa origem”, refletiu.
Um encontro muito aguardado
Antes da apresentação em San Juan, Cuturrufo disse que o grupo chega “com uma mistura de ansiedade e alegria”. “Queremos encarar o público sem saber muito, para experimentar. Queremos que vocês vivenciem o que trazemos e que nós sintamos o que o público nos dará em troca”, afirmou.
“Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para que seja algo bonito e emocionante”, concluiu.
O Festival Nacional de Jazz de San Juan 2026 será encerrado no sábado, 14 de fevereiro, no Teatro Bicentenário, com a apresentação, pela primeira vez na província, do Quarteto Melissa Aldana, consolidando San Juan como um palco fundamental para o desenvolvimento do jazz em nível nacional e internacional.
Fonte: Diário Huarpe

