Projeto Pacífico completa 30 anos integrando Brasil e países andinos
O Projeto Pacífico é hoje reconhecido como um marco pioneiro para a integração continental e por rodovias asfaltadas e incentivou a construção de um promissor corredor bioceânico com início no Mato Grosso do Sul, atravessando o Paraguai rumo ao Chile e Peru, passando pelo norte da Argentina, com previsão de conclusão até o final de 2026.
Há 30 anos, o Expresso Araçatuba foi o protagonista ao representar o transporte rodoviário de cargas em uma travessia inédita que ligava o Brasil à costa do Oceano Pacífico, batizado de Projeto Pacífico, reconhecido como um marco pioneiro para a integração continental. Ao todo foram 6.000 quilômetros percorridos, a maioria em estradas sem pavimentação, ao longo de 24 dias. Quem conta essa história são Oswaldo Dias de Castro Jr., um dos idealizadores do Projeto pelo Expresso Araçatuba, e Antonio Luiz Leite, presidente NTC&Logística.

Balcão Automotivo – Quais foram os objetivos deste feito pioneiro, que viabilizou a integração do Norte e Oeste do Brasil à América do Sul?
Antonio Luiz Leite – Nos anos 90, a cada ano, de forma mais intensa, o Brasil aumentava suas relações comerciais com o mundo. Era o efeito da globalização. Porém, as vias para que os produtos brasileiros atingissem seu destino com custo competitivo estavam restritas aos portos brasileiros, agregando ao valor das mercadorias o ‘Custo Brasi’, ou seja, longos e caros caminhos físicos e burocráticos que nos distanciavam do resto do mundo, em especial do mercado asiático.
Neste contexto, a formação de um bloco sul-americano era um dos desafios que se colocavam ao continente, e a formação do Mercosul, parecia ser uma alternativa promissora. Porém, este bloco só se viabilizaria a partir do momento em que estivesse integrado fisicamente de fato, através de vias de circulação terrestre, que iriam interiorizar o desenvolvimento econômico, complementarmente aos portos tradicionais, que se restringem à faixa litorânea de cada nação. No cerne dessas discussões, no coração da América do Sul, residia a ideia da conexão bioceânica.

BA – Quantos veículos participaram da caravana?
Oswaldo Dias de Castro – Um ônibus da empresa União Cascavel, do Paraná, acompanhado de dois veículos 4X4 de apoio, um caminhão trucado 6X2 e um veículo de apoio 4X4, da transportadora Expresso Araçatuba, de São Paulo. Fomos num grupo de 42 pessoas experientes, porém, nenhuma delas jamais havia percorrido o trajeto por completo. Tanto o ônibus quanto o caminhão semipesado se constituíam desafios para o tipo de percurso a ser percorrido, mas o intento era ter uma visão realista do ponto de vista dos operadores de transporte de passageiros e, em especial, de mercadorias.
BA – Qual foi o percurso total e em quanto tempo foi feito todo o trajeto de ida e volta?
OC – Foram 6.000 quilômetros, a maioria em estradas sem pavimentação, ao longo de 24 dias, partindo de Porto Velho (RO) no dia 08/09/1995 rumo à Bolívia e Chile e retornando ao Brasil, vindo do Peru, chegando em Rio Branco (AC) no dia 01/10/1995.
BA – Como eram as condições das estradas naquela época e quais foram os principais desafios?
OC – Os principais desafios na 1ª viagem, por uma rota bioceânica a partir da região Norte, foi o encontro com o desconhecido. Fomos num grupo de 42 pessoas experientes, porém, nenhuma delas jamais havia percorrido o trajeto por inteiro, não havia mapas, GPS, cobertura de celular, postos de abastecimento, segurança pública e outros recursos básicos. Ao optarmos por utilizar um caminhão semipesado e um ônibus, todos esses desafios foram potencializados. Vale lembrar que estamos falando da transposição da maior cordilheira do planeta por estradas de terra com menos de 3 metros de largura, com elevações superiores a 5.000 metros, travessias de rios sem pontes, atoleiros e outros desafios inerentes a uma travessia sem precedentes.
BA – Como foi planejada a logística para, caso fosse necessária, a manutenção dos veículos?
OC – No caso do caminhão, levamos as principais peças de reposição e um mecânico experiente indicado pela montadora, que cedeu o caminhão para a expedição. Além disso, o Expresso Araçatuba destacou um motorista com larga experiência ao volante, além de um auxiliar de operações e 2º motorista; e 2 gerentes da empresa com experiência em rotas de difícil acesso.
BA – Durante o percurso houve demandas por manutenção?
OC – Nada que não estivesse nos próprios veículos. O principal desafio mecânico encontrado foi a suspensão do caminhão, que sofreu grande desgaste e deslocamentos com as valetas e pedras das estradas, além da dificuldade nos atoleiros, por ser um veículo com tração simples, apresar da sua potência bastante excedente em relação à capacidade de carga.
BA – Durante o percurso, havia a disponibilidade de autopeças ou uma rede de apoio para a manutenção dos veículos?
OC – As únicas localidades com infraestrutura mínima de apoio mecânico, além dos pontos de saída e chegada, foram Iquique e Arica, no Chile, além de La Paz, na Bolívia, e Arequipa, Puno e Cusco, no Peru.
BA – Finalizando, o Projeto Pacífico deixou um grande legado, uma operação regular de transporte de cargas entre São Paulo e Lima. Hoje, qual é a importância desta operação para o Brasil?
AL – Durante os anos que se sucederam, o projeto foi divulgado na mídia nacional e internacional, teve filmes produzidos e inseridos no meio acadêmico, empresarial e político. Houve inúmeros encontros e os participantes foram recepcionados pelos presidentes dos três países envolvidos (Bolívia, Chile e Peru), e por diversos governadores, membros diplomáticos e dos poderes executivo e legislativo desses países.
O Projeto Pacífico é hoje reconhecido como um marco pioneiro para a integração continental e alavancou o asfaltamento de uma rota através do Acre, pela BR 317, chegando ao litoral do Peru por rodovias asfaltadas e incentivou a construção de um promissor corredor bioceânico com início no Mato Grosso do Sul, atravessando o Paraguai rumo ao Chile e Peru, passando pelo norte da Argentina, com previsão de conclusão até o final de 2026.

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Comemoração dos 30 anos do Projeto Pacífico
No dia 5 de novembro de 2025, a NTC&Logística e a FuMTran (Fundação Memória do Transporte) realizaram a celebração dos 30 anos do Projeto Pacífico no Palácio dos Transportes, em São Paulo (SP), sede das entidades do setor, como a FETCESP, o SETCESP e a NTC&Logística.
Segundo José Maria Gomes, diretor Financeiro da NTC&Logística, “o Projeto Pacífico é uma lembrança viva de como o transporte rodoviário sempre esteve à frente do seu tempo. Celebrar essa história é reafirmar o compromisso da NTC&Logística em valorizar o passado, fortalecer o presente e construir um futuro cada vez mais integrado e inovador para o transporte brasileiro”, declarou.
No seu discurso, disse Oswaldo Dias de Castro Jr., “é impressionante perceber como o tema da integração continental continua atual. O que há 30 anos parecia apenas um sonho, hoje se mostra ainda mais necessário para o desenvolvimento do Brasil e da América do Sul. Esse projeto sempre foi movido pelo idealismo, pelo desejo de contribuir com algo maior. Estar aqui, revendo essa história e reencontrando tantas pessoas queridas, é motivo de grande satisfação”, afirmou.

Para Antonio Luiz Leite, presidente NTC&Logística, o evento reforçou a missão da FuMTran de preservar e valorizar a memória do setor. “Resgatar a história do transporte é garantir que as próximas gerações compreendam a importância de quem abriu caminhos e construiu as bases da logística nacional. O Projeto Pacífico representa exatamente isso – coragem, inovação e o espírito de integração que move o transporte brasileiro. É um orgulho para a FuMTran manter viva essa trajetória e compartilhar esse legado com todo o setor”, descreveu.
O evento teve as presenças de autoridades, empresários, imprensa e representantes de entidades que prestigiaram a celebração do feito que marcou a integração logística entre o Brasil e os países andinos.

Fonte: Balcão Automotivo

