‘Precisa sair do papel’: Ferrogrão emperrada expõe gargalo crônico da infraestrutura brasileira
A Ferrogrão, ferrovia planejada para conectar Sinop (MT) a Itaituba (PA), tornou-se símbolo da dificuldade crônica de tirar grandes projetos de infraestrutura do papel no Brasil. Em editorial publicado nesta segunda-feira (25), o jornal O Globo reforça o coro de empresários, economistas e representantes do agronegócio que veem na obra uma peça-chave para destravar o escoamento de grãos no país mas que, mesmo com sua relevância estratégica, segue atolada em impasses jurídicos e disputas políticas.
Com quase mil quilômetros de extensão, o projeto é considerado essencial para reduzir o custo do transporte agrícola, desafogar rodovias e impulsionar a chamada rota do Arco Norte, que utiliza os portos do Pará como alternativa ao escoamento concentrado no Sudeste e Sul. Mato Grosso, principal estado produtor de grãos do país, é o maior interessado na obra. Se fosse um país, o estado ocuparia o quarto lugar no ranking global de produção de soja e algodão.
“Da porteira para dentro, o agro é um exemplo de produtividade e inovação. O problema é da porteira para fora”, diz o editorial de O Globo, em uma crítica direta à ausência de infraestrutura compatível com o peso do setor na economia nacional.
Justiça trava, produção espera
Apesar da ampla defesa da Ferrogrão por parte do setor produtivo, o projeto enfrenta obstáculos consideráveis. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a Lei nº 13.452/2017, que modificava os limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará, para permitir a passagem da ferrovia. A decisão atendeu a uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) movida pelo PSOL, que aponta riscos ambientais à floresta e a comunidades tradicionais da região.
Com isso, o traçado atual da Ferrogrão permanece judicialmente paralisado, e o projeto, estagnado. Ambientalistas criticam a possível abertura de uma nova frente de desmatamento na Amazônia, enquanto o setor produtivo argumenta que a ferrovia seria justamente uma solução mais sustentável que o transporte rodoviário, por reduzir emissões e o tráfego de caminhões.
Promessa que não anda
Lançada em 2016 e considerada prioridade desde então por diferentes governos, a Ferrogrão ainda não saiu da fase de estudos e embates legais. Mesmo com a previsão de investimento superior a R$ 12 bilhões via concessão à iniciativa privada, o governo federal tem sido cobrado por sua lentidão na condução do processo.
“O Brasil quer ser protagonista no comércio global de alimentos, mas não consegue garantir a logística mínima para isso”, afirma o economista Cláudio Silva, especialista em infraestrutura e agronegócio. “A Ferrogrão não é apenas uma obra — é um teste sobre nossa capacidade de planejamento e execução.”
Um retrato do atraso
O caso da Ferrogrão escancara um dos principais dilemas do Brasil: a desconexão entre ambição econômica e capacidade institucional. Enquanto o agronegócio bate recordes de produtividade e exportação, o país segue enfrentando dificuldades para implementar projetos que exigem articulação entre diferentes esferas de governo, sensibilidade ambiental e segurança jurídica.
Sem a ferrovia, o transporte de grãos continua dependendo de longas e caras rotas rodoviárias, muitas delas em péssimo estado de conservação. O custo logístico, inevitavelmente, recai sobre o produtor e, em última instância, sobre o consumidor.
A pergunta que permanece, ano após ano, é a mesma: por que obras tão importantes continuam travadas no papel? A resposta, como mostra o impasse da Ferrogrão, está num emaranhado de burocracia, judicialização, falta de consenso político e ausência de visão estratégica de longo prazo. E o Brasil segue perdendo tempo — e competitividade.
Fonte: Infoverus

