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“O término da Rota Bioceânica fará com que MS tenha conexão para exportação da produção suína”

Mato Grosso do Sul tem assistido a uma transformação silenciosa, mas robusta, no campo: a suinocultura se firma como uma das atividades agropecuárias de maior expansão no Estado. Em pouco tempo, o rebanho cresceu, novos empreendimentos se instalaram e investidores de outras regiões passaram a enxergar MS como uma fronteira promissora para a produção de suínos. 

Por trás desse avanço, de acordo com o presidente da Associação dos Suinocultores de Mato Grosso do Sul (Asumas), está uma combinação de fatores estratégicos, indo da oferta de grãos ao ambiente sanitário favorável. 

À frente da Asumas, o presidente Renato Spera explica, em entrevista ao Correio do Estado, os motivos que vêm impulsionando o setor, os desafios da competitividade, os custos de produção e o potencial de crescimento da cadeia nos próximos anos.
 
O que explica a rápida expansão da suinocultura em Mato Grosso do Sul nos últimos anos?

A suinocultura tem crescido em Mato Grosso do Sul por uma soma de fatores estratégicos: disponibilidade de terras, proximidade com a produção de grãos, como milho e soja, e um ambiente favorável para investimentos. Mas um ponto decisivo tem sido a organização do setor, com o fortalecimento da Associação dos Suinocultores de Mato Grosso do Sul [Asumas], que atua em defesa dos produtores, promove capacitações e estimula boas práticas de produção.

Além disso, o governo estadual tem incentivado o setor, com destaque para a disponibilidade de financiamentos de novos projetos por meio do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO), o programa Leitão Vida, que oferece apoio direto aos produtores independentes, cooperativas e integrados, contribuindo para melhorar a produtividade e garantir maior sustentabilidade à cadeia. Essa combinação de fatores tem dado segurança e atratividade para novos investimentos.

Hoje, qual o tamanho do rebanho suíno no Estado? Quais regiões de MS concentram a produção?

Atualmente, o rebanho de suínos em Mato Grosso do Sul gira em torno 1,9 milhão de animais, sendo aproximadamente 120 mil matrizes suínas produtivas. As principais regiões produtoras são o sul e o sudoeste do Estado, com destaque para municípios como Glória de Dourados, Jateí, Dourados, Itaporã, São Gabriel do Oeste. Grandes expansões estão acontecendo nos quatro cantos do Estado. 

O que tem motivado os investidores a apostar na suinocultura em Mato Grosso do Sul?

O Estado oferece condições sanitárias privilegiadas, com baixo índice de enfermidades suínas. O maior exemplo disso é o reconhecimento internacional de zona livre de febre aftosa. Um outro exemplo foi a contenção do foco de influenza que apareceu alguns meses atrás, no qual a defesa sanitária agiu rapidamente. A Iagro tem feito um trabalho muito bem-feito, com proatividade, agilidade. Também, não tem como deixar de citar, é a boa disponibilidade de grãos para ração e incentivos fiscais que tornam o investimento mais viável. 

Para um futuro bem próximo, o término da construção da Rota Bioceânica fará com que MS tenha uma maior conexão internacional para exportação da produção suína. 

Quanto custa, em média, instalar uma granja de suínos atualmente?

O valor depende do tipo de sistema produtivo, mas uma granja de 3 mil matrizes, que produz leitões, pode ultrapassar R$ 23 milhões, considerando estrutura, automação, licenciamento ambiental, biosseguridade e até mesmo equipada para produzir energia limpa.

Qual o retorno médio de um projeto de suinocultura hoje no Estado? O preço pago pelo quilo do suíno está compensando o investimento?

O retorno varia conforme o tipo de produção e o modelo de negócio. Em média, o retorno do investimento pode ocorrer nos 15 anos pós-quitação do financiamento do FCO. 

O preço pago pelo quilo do suíno está estável, mas margens apertadas exigem gestão eficiente e controle de custos. Um ponto importante é a valorização da terra do produtor e o desenvolvimento social regional com a implantação da suinocultura, trazendo recursos locais.

O produtor sul-mato-grossense consegue competir com o de outros estados, como Santa Catarina e Paraná?

Apesar dos desafios logísticos atualmente, Mato Grosso do Sul tem produtividade, sanidade e custo de produção que permitem competir com grandes produtores. A distância dos portos é compensada pela proximidade com centros consumidores importantes do Centro-Oeste, do Sudeste e do Norte. 

Um diferencial são as estruturas das granjas, com modelos de grande porte, o que ajuda na competitividade do custo de produção.

O aumento da produção está acompanhado de crescimento na capacidade de abate das agroindústrias locais?

Há investimentos sendo feitos por agroindústrias no Estado. Grandes empresas estão ampliando unidades, e novas plantas estão em fase de projeto. Ainda há espaço para crescer, mas o equilíbrio entre produção e abate precisa continuar sendo monitorado.

Quais os principais custos que mais pesam no bolso do suinocultor?

A alimentação representa cerca de 70% do custo de produção, principalmente por conta do milho e do farelo de soja. Outros custos relevantes são mão de obra, energia elétrica e biosseguridade.

A alta no preço do milho e da soja impactou a margem de lucro?

Sim, impactou bastante. Como alimentação é o principal insumo, qualquer variação nos preços do milho e da soja afeta diretamente a rentabilidade do produtor. Por isso, muitos têm buscado alternativas como contratos futuros, integração e produção própria de grãos. 

Para balancear isso, a nossa associação “mãe”, a ABCS [Associação Brasileira de Criadores de Suínos], faz um trabalho muito bem elaborado, incentivando o consumo da carne suína.

Quais os impactos da logística, da distância de portos e dos mercados consumidores para o setor aqui?

A distância dos portos encarece o frete para exportação, mas Mato Grosso do Sul tem a vantagem da localização estratégica para abastecer o mercado interno. O Estado ainda não é forte em exportação. 

Muito do que é produzido aqui fica no mercado interno, comparando, por exemplo, com o estado de Santa Catarina. O desafio logístico existe, e será compensado em um futuro próximo com a Rota Bioceânica.

O Estado tem oferecido algum tipo de incentivo fiscal ou apoio para o setor?

Há incentivos fiscais, como redução do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços [ICMS] sobre insumos e investimentos, e incentivos diretos ao produtor, como disponibilidade de financiamentos de novos projetos por meio do FCO e o Leitão Vida. Também temos apoio técnico da Iagro, da Semadesc e parcerias com o Sebrae, a Embrapa e a UFGD.

O mercado interno ou as exportações têm puxado mais a demanda por carne suína em MS?

Hoje, o mercado interno ainda é o principal destino, mas as exportações vêm crescendo, especialmente para países da Ásia e da América Latina. A tendência é de que a produção sul-mato-grossense se consolide também no mercado internacional.

A suinocultura tem atraído investidores de fora de Mato Grosso do Sul?

Temos observado a chegada de investidores de outros estados, inclusive de grandes grupos do Sul e do Sudeste. Isso é reflexo do potencial de crescimento, segurança sanitária e condições favoráveis oferecidas por Mato Grosso do Sul.

Qual o potencial de crescimento da suinocultura em Mato Grosso Sul nos próximos anos?

O potencial é enorme. Estimamos que o rebanho possa dobrar nos próximos 10 anos, se houver equilíbrio entre produção, abate, mercado e sustentabilidade. Nosso desafio é crescer de forma estruturada, com responsabilidade ambiental e social, e agregar valor à produção local.

PERFIL – Renato Spera 
É presidente da Associação Sul-Mato-Grossense de Suinocultores (Asumas) e uma das principais lideranças da suinocultura em Mato Grosso do Sul. Nascido em Assis (SP), chegou ao Estado em 2002 para atuar na Seara Alimentos, onde trabalhou por sete anos. Foi nesse período que iniciou sua trajetória na suinocultura, fundando sua própria granja e se dedicando integralmente ao setor como produtor.

Com mais de 20 anos de experiência, Spera é hoje um dos grandes produtores do Estado, com uma estrutura de terminação localizada em Jateí – a 70 km de Dourados – com capacidade para 4.200 animais prontos para o abate. 

Sua relação com a Asumas começou em 2004, ainda enquanto trabalhava na Seara. Desde então, passou a se engajar no associativismo e na organização de classe, marcas registradas da suinocultura sul-mato-grossense.

Fonte: Correio do Estado

Leia mais em: https://correiodoestado.com.br/cidades/o-termino-da-rota-bioceanica-fara-com-que-ms-tenha-conexao-para/450477/

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