Macrozona Norte do Chile: além da fronteira
Minimercados e restaurantes em assentamentos ilegais, a venda de casas em terrenos públicos e organizações de bairro que tentam impedir a construção de abrigos improvisados em seus arredores. Essa realidade transformou a face de Antofagasta e fez da região um ecossistema onde a migração irregular e o crime organizado coexistem com polos de desenvolvimento estratégico, como a mineração e o projeto do Corredor Bioceânico.
Já em 2015, havia indícios do crescimento contínuo de assentamentos informais. Uma década depois, o problema não só se tornou mais arraigado, como também mais complexo, revelando uma resposta estatal tardia e fragmentada.
O paradoxo é evidente. Embora o cobre e o lítio tenham impulsionado o crescimento do PIB regional em 3,4% em 2025, um ponto percentual acima da média nacional, e a mineração represente quase 50% do produto regional e um terço do emprego, esse dinamismo econômico coexiste com um aumento contínuo das vulnerabilidades estruturais.
O fenômeno deve ser compreendido como um sistema. Por um lado, existem fatores facilitadores : infraestrutura portuária, conectividade logística pela Rota 5, proximidade da fronteira e lacunas no controle territorial que permitiram a consolidação de assentamentos ilegais. Por outro lado, há um fator criminal caracterizado pela presença de gangues organizadas, crimes complexos e suas ligações com redes de narcotráfico. Finalmente, a convergência desses elementos gera oportunidades econômicas ilegais que se integram e exploram o dinamismo da região.
Diante desse cenário, abordar a segurança no norte apenas sob a perspectiva das fronteiras é insuficiente. É necessária uma estratégia abrangente que integre políticas de segurança ao planejamento urbano, políticas habitacionais, prevenção ao narcotráfico e ao fortalecimento das capacidades locais. Nesse contexto, a segurança deixa de ser um setor isolado e se torna um eixo transversal da atuação do Estado.
Além disso, Antofagasta não pode ser analisada isoladamente. Ela faz parte de um sistema maior: a Macrozona Norte. Intervenções em regiões como Arica e Parinacota ou Tarapacá geram efeitos indiretos que impactam diretamente Antofagasta, e vice-versa. Sem uma perspectiva sistêmica, as políticas correm o risco de simplesmente transferir os problemas.
O Chile enfrenta hoje um momento decisivo. A magnitude e a complexidade dessas dinâmicas exigem uma transição para um modelo de governança integrada que supere a fragmentação institucional e promova uma coordenação eficaz entre os níveis de governo, o setor privado e as comunidades locais.
O desafio não é apenas conter a emergência, mas construir uma resposta sustentável ao longo do tempo. Combinar medidas imediatas com políticas permanentes será fundamental para ampliar os sucessos alcançados nos primeiros dias de governo.
Fonte: Pilar Lizana – Especialista em segurança, tráfico de drogas e defesa – El Libero

