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Jujuy, capital do Corredor Bioceânico de Capricórnio

Nos dias 8, 9 e 10 de outubro, San Salvador de Jujuy sediará o Fórum de Governos Subnacionais do Corredor Bioceânico de Capricórnio. A capital não oficial da Guerra de Independência da Argentina se tornará, em poucos dias, a peça central de um projeto em rápida expansão.

Jujuy, capital do corredor bioceânico de Capricórnio

Este não é apenas mais um evento: este encontro reflete um processo que está redefinindo o mapa da integração do Cone Sul, com epicentro no Trópico de Capricórnio. Um corredor que conecta o Atlântico e o Pacífico e atravessa territórios estratégicos na Argentina, Brasil, Paraguai e Chile, abrindo novas possibilidades para nossas regiões.

Mas o desafio não é apenas explicar o que esse novo projeto de integração implica. A verdadeira tarefa em questão é transformar a narrativa em ações concretas que gerem oportunidades de negócios, oportunidades de emprego, oportunidades de valor agregado e inclusão nas cadeias produtivas locais e regionais. De nada adianta documentos oficiais (adormecidos em algum escritório do governo) falarem sobre competitividade e conectividade se nossas populações ainda não conseguem compreender ou colher os benefícios desses processos.

Nesse sentido, o papel dos municípios é central. Eles são os níveis mais altos de governo, aqueles em contato direto com os cidadãos e intimamente familiarizados com suas demandas cotidianas. Para eles, o corredor rodoviário bioceânico deve ser uma ferramenta que abra caminhos para o desenvolvimento real: parques industriais, polos logísticos, serviços de transporte, inovação agroindustrial e cadeias de valor do turismo. Se não garantirmos que cada comunidade veja o potencial dessa integração refletido em seu cotidiano, o corredor permanecerá um conceito abstrato, talvez com benefícios para alguns poucos privilegiados.

A coordenação com o setor privado é igualmente crucial. Nenhum processo de desenvolvimento é sustentável sem empresas que invistam, assumam riscos e criem empregos. O fórum deve ser um espaço para construir pontes entre governos subnacionais e empresas regionais, com projetos e compromissos que vão além de declarações e se traduzam em investimentos e ações concretas.

Paralelamente, há um ator com papel central: a educação, com ênfase na educação para a integração, por meio da rede de universidades dos países envolvidos, a Unirila, articulando-se com os sistemas educacionais do corredor.

O conhecimento é a infraestrutura invisível que sustenta qualquer estratégia de integração. Capacitar capital humano, pesquisar, transferir tecnologia e apoiar os governos locais com diagnósticos e propostas deve fazer parte do compromisso da universidade. Não basta continuar “pregando aos convertidos” em seminários acadêmicos. A universidade deve ir a campo, trabalhar com os municípios, coordenar-se com os líderes empresariais e se tornar uma força motriz para o desenvolvimento regional, gerando mais e maiores oportunidades intrarregionais.

É hora de dar um salto qualitativo: promover um verdadeiro programa de mobilidade acadêmica inspirado no Erasmus europeu, um “Erasmus Corredor”, que permitiria que estudantes, professores e pesquisadores viajassem e se formassem em universidades da Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Bolívia. Isso não apenas ampliaria a formação profissional e cultural, mas também consolidaria a identidade compartilhada do Corredor Bioceânico como uma verdadeira comunidade de aprendizagem e futuro compartilhado.

Embora o percurso do Corredor envolva localidades já mencionadas no documento-mãe da Cúpula de Assunção de 2015, a Declaração de Assunção sobre Corredores Bioceânicos, devemos promover e fomentar o que chamo de Mercosul periférico, ou seja, o envolvimento e a liderança de regiões não centrais no processo que começou em 1991, não por acaso em Assunção, Paraguai.

Nossa macrorregião possui o que o mundo demanda: minerais estratégicos como lítio, terras raras, cobre, prata, ouro, urânio e outros; alimentos agrícolas que nutrem o planeta; culturas vivas que precisam ser valorizadas, baseadas na herança hispano-americana, nos povos andino e guarani, na memória afro-americana e nos imigrantes europeus e asiáticos que chegaram nos séculos XIX e XX; nosso multiculturalismo em ação, um patrimônio fabuloso.

Tudo isso em uma zona única de paz, parte do aquífero Guarani e da magnífica Bacia do Prata, com florestas que são os pulmões do mundo e patrimônios da humanidade como o Quebrada de Humahuaca, em Jujuy, e Bonito, no Mato Grosso do Sul, além do Pantanal e das reservas de Yungas.

Esses ativos fazem da nossa região um espaço formidável, com potencial de desenvolvimento que não pode mais ser negligenciado.

Esse processo de integração se deve, em grande parte, à necessidade do centro-oeste brasileiro e do norte do Paraguai de acessar os mercados asiáticos de forma mais rápida e com custos mais baixos. Hoje, as exportações de soja, carne, minerais e outros produtos precisam sair principalmente pelos portos do Atlântico, enfrentando atrasos crescentes e fretes mais caros. Soma-se a isso o congestionamento do Canal do Panamá, que prolonga os prazos de embarque e eleva ainda mais os custos logísticos. Por outro lado, chegar aos portos do norte do Chile — Antofagasta, Iquique e Mejillones — reduz o número de dias de navegação para a China e o restante da Ásia, melhorando a competitividade regional. O Corredor Bioceânico não é, portanto, uma declaração de boas intenções, mas uma resposta a uma necessidade real e urgente de comércio internacional.

O desafio para argentinos, brasileiros, chilenos, paraguaios e bolivianos é claro: agregar valor à nossa produção e integrar cadeias de valor regionais e globais em mineração, turismo, agronegócio, logística e transporte, energia renovável, economia do conhecimento e todas as áreas estratégicas que definem a quinta revolução industrial. Só assim podemos gerar oportunidades de desenvolvimento para o nosso ativo mais importante: as nossas pessoas.

Os jovens, com sua energia e criatividade, e os adultos, com toda a experiência acumulada, são a verdadeira força motriz por trás desse processo. O futuro é agora, e nesta região temos tudo para torná-lo possível.

Nesse caminho, nosso desafio é duplo: atender às necessidades dos clientes internacionais em todos os níveis, mas sem descuidar da nossa própria necessidade de desenvolvimento. Devemos evitar a dependência doentia da reprimarização, que historicamente nos condenou à vulnerabilidade. Em um contexto em que empresas chinesas, japonesas, europeias, americanas e canadenses, juntamente com o capital sul-americano, interagem, integram-se e competem por mercados e recursos estratégicos – em particular lítio, cobre e outros minerais críticos –, precisamos fortalecer nossa soberania produtiva e tecnológica. O risco de a região ficar presa à mera fornecedora de insumos básicos é real, e é por isso que a integração deve se traduzir em desenvolvimento com valor agregado local, e não em uma nova subordinação a interesses externos.

O Fórum de Governos Subnacionais acontece em um momento em que o mundo debate novas formas de integração e desenvolvimento diante dos desafios da transição energética, da digitalização e da geopolítica. O Corredor Bioceânico de Capricórnio pode ser nossa grande oportunidade, mas somente se passarmos da retórica à ação. O que está em jogo não é um mapa ou uma narrativa, mas o futuro concreto de nossas comunidades.

O comprometimento e o trabalho contínuo, além do fórum de três dias, serão essenciais para garantir que a integração não permaneça apenas nas manchetes, mas se traduza em oportunidades reais para nosso povo.

Nosso futuro não se define em discursos ou reuniões, mas na capacidade de nossas sociedades de liderar a transformação de ativos em desenvolvimento real para nossos povos: o corredor bioceânico deve deixar de ser apenas um mapa e se tornar um espaço de prosperidade compartilhada para todos.

“San Salvador de Jujuy em breve se tornará a capital do Corredor Bioceânico: o ponto de intersecção das rotas, culturas e oportunidades do novo Mercosul periférico.”

*Bacharel em Relações Internacionais. Diretor do programa de Relações Internacionais da UCSE Jujuy, membro do Departamento de América Latina e Caribe do IRI-Universidade Nacional de La Plata e membro do Conselho Federal de Estudos Internacionais (COFEI).

POR ALEJANDRO SAFAROV

Diretor do Programa de Relações Internacionais da UCSE-DASS, Membro

Departamento da América Latina e do Caribe

IRI-UNLP e o Conselho Federal de Estudos Internacionais -CoFEI-

Fonte: El Tribuno de Jujuy

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