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Integração sul-americana ganha reforço com ‘tarifaço’ de Trump e governo amplia diagnóstico sobre rotas

Amanda Pupo e Sheyla Santos, da Agência iNFRA

A possibilidade de as exportações brasileiras aos Estados Unidos serem tarifadas em 50% a partir de agosto vai reforçar a necessidade de o Brasil viabilizar novos mercados e inverter o status subaproveitado das trocas com outros países da América do Sul. Para isso, no entanto, é preciso vencer gargalos históricos de infraestrutura visando uma conexão mais eficiente com os vizinhos.   

O mapeamento do tema avançou mais uma etapa dentro do governo nos últimos meses, com a conclusão de um novo estudo das Rotas de Integração Sul-Americana, divulgado nesta segunda-feira (28) pelo MPO (Ministério do Planejamento e Orçamento). O documento identifica desafios na infraestrutura e oportunidades para potencializar a conexão dos 16 estados brasileiros não fronteiriços com a economia dos países vizinhos. 

“Ele [Estados Unidos] está empurrando para nós a necessidade maior ainda de fazer a integração sul-americana”, avaliou à Agência iNFRA o secretário de Articulação Institucional do MPO, João Villaverde. Ele lembrou que o comércio intrarregional hoje é de apenas 15%. Em contraste, na Ásia, por exemplo, ele é de 58%. Na Europa, é de 62%. “Por que somos justamente nós, os sul-americanos, a destoar? Aproximar o nosso continente das práticas globais é um mandamento”, afirma texto assinado pela ministra Simone Tebet no relatório.

Elaborado a partir de um cruzamento de dados públicos, como da Receita Federal e do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), e reuniões com os executivos locais, o recente estudo do MPO traz, entre outros pontos, um raio-x do escoamento produtivo de cada um dos 16 estados não fronteiriços. A partir disso, indica oportunidades de melhoria na malha de transporte para conectá-los com mais eficiência às rotas de integração.

“Chamou muito a nossa atenção como de modo geral os estados brasileiros percorrem muitas rodovias dentro do Brasil em vez de fazer outros modais. O trabalho mostra que temos uma necessidade premente de gastar mais tempo e mais recursos com ferrovias e hidrovias”, disse o secretário do MPO. 

Demanda e sugestões
Segundo Villaverde, o olhar para os estados não fronteiriços partiu também de uma demanda ouvida no diálogo com empresários, interessados tanto em atender mais mercados na América Latina como em explorar a via de exportação pelo Pacífico. O sentido contrário também é destacado, especialmente após a conclusão do acordo Mercosul-União Europeia. A integração regional poderia facilitar as vendas à Europa dos países vizinhos através dos portos brasileiros, destacadamente do Nordeste. 

O relatório dedica uma seção de diagnóstico e recomendações para cada um dos Estados, o que inclui também análises sobre atividades econômicas e oportunidades de negócios nas regiões. Entre as sugestões, no Nordeste, por exemplo, o MPO indica a importância de se viabilizar um porto seco ou uma plataforma logística na cidade de Salgueiro (PE). A cidade tem uma localização “estratégica”, cita a pasta, relacionada às possibilidades de conexão com a BR-232, a BR-116 e a Ferrovia Transnordestina. 

Muitos dos achados têm ligação direta com obras ou projetos já idealizados no país e que são parte dos empreendimentos monitorados no âmbito das Rotas de Integração Sul-Americana. A situação adiciona um grau de dependência do programa ao andamento de obras que historicamente têm desafios para sair do papel – como é o caso de ramais da Transnordestina. 

Outro exemplo é o corredor Fico (Ferrovia da Integração do Centro Oeste)-Fiol (Ferrovia de Integração Oeste Leste), que finaliza na Bahia mas ainda está em fase de construção ou de estudos para alguns trechos, com leilão programado apenas para 2026. Villaverde afirma que o Brasil tem uma “necessidade absurda” de os projetos da Fico e da Fiol se concluírem. “Esse trabalho também mostrou para nós como é chave pensar numa ferrovia bioceânica”, disse o secretário. 

Potencial
Entre outras recomendações, o estudo do MPO indica vantagens no fortalecimento do porto seco do Distrito Federal, na revitalização do Porto Fluvial de Ibotirama (BA), na implementação de um porto seco em Quixeramobim (CE) e na reestruturação do Porto Fluvial de Pirapora (MG). “Há um papel de soldura nacional que Minas Gerais exerce pela infraestrutura”, observou o secretário do MPO. 

Ele também chama atenção para os números de São Paulo, em especial após o anúncio do tarifaço de Trump. Segundo o relatório, nos últimos anos, uma média de quase 25% das exportações totais paulistas foram destinadas aos países da América do Sul. Em 2024, foram US$ 15,1 bilhões, sendo US$ 8,1 bilhões (54%) por rodovias. 

Isso mostra que São Paulo exportou mais para a América do Sul do que para os Estados Unidos (US$ 13,6 bilhões). “Só o que São Paulo exporta para a América do Sul por rodovia é mais do que São Paulo exporta ao todo para a China”, assinalou também Villaverde, argumentando que há muito espaço para o comércio com a América do Sul crescer. 

O MPO diz que o estado exerce “papel central” na edificação da integração sul-americana, com potencial para ampliar a exportação de serviços de valor agregado para a região. “No caso das importações paulistas de bens oriundos da região, 59% se dão por caminhões. A melhoria das condições das estradas e dos pontos de fronteira é fundamental para manter ou ampliar esses resultados”, afirma o relatório.

Cronograma
Nas primeiras fases do projeto, criado em 2023, a pasta focou na viabilização das cinco rotas de integração do Brasil com a América Latina especialmente a partir dos 11 estados de fronteira. Villaverde explicou que o próximo passo agora é oficializar as sugestões envolvendo os 16 estados não fronteiriços à Casa Civil, que vai decidir como será o acompanhamento desse novo cardápio. “Veremos se isso será incorporado à sala de situação já estabelecida das Rotas, tal como conhecemos, ou se faremos um grupo”, disse.

O governo busca viabilizar cinco Rotas de Integração Sul-Americana. São elas: “Rota 1 – Ilha das Guianas”; “Rota 2 – Amazônica”; “Rota 3 – Quadrante Rondon”; “Rota 4 – Bioceânica de Capricórnio”; e “Rota 5 – Bioceânica do Sul”, que reúnem ao todo 190 projetos e obras.

Fonte: Agência Infra

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