Ferrovia Bioceânica: infraestrutura, interesses geopolíticos e riscos ambientais
O projeto da Ferrovia Bioceânica, uma ambiciosa iniciativa de infraestrutura ferroviária que busca conectar os oceanos Pacífico e Atlântico através do Peru e do Brasil, voltou a ganhar destaque após a inauguração do megaporto de Chancay, na costa peruana. Este projeto ligaria os dois oceanos por meio de um corredor ferroviário que atravessaria a Cordilheira dos Andes e vastas áreas da floresta amazônica.
No entanto, embora o projeto esteja avançando nas frentes política e econômica, especialistas alertam para os potenciais impactos sociais e ambientais que ele pode ter nos territórios amazônicos e nas comunidades indígenas.
O impulso mais recente para a Ferrovia Bioceânica ocorreu em julho de 2025, quando o Brasil e a China assinaram um acordo de cooperação para desenvolver o corredor ferroviário. O acordo foi assinado pelo Ministério dos Transportes do Brasil e pelo Instituto de Planejamento Econômico e Pesquisa do Grupo Ferroviário Estatal da China.
Embora o governo peruano não tenha participado diretamente desse acordo, representantes do Peru realizaram reuniões com autoridades chinesas para discutir o desenvolvimento ferroviário do país. Em maio de 2025, o então Ministro da Economia e Finanças, Raúl Pérez Reyes, e o Ministro dos Transportes e Comunicações, César Sandoval Pozo, reuniram-se com o Presidente da Administração Ferroviária Nacional da China, Fei Dongbin.
Meses depois, em janeiro de 2026, foi anunciada a construção do primeiro trecho do projeto: a linha férrea que ligaria o porto de Chancay ao Planalto Central do Peru. Segundo informações, esse trecho foi concedido a uma empresa chinesa, embora o trajeto que o trem fará dessa região até o Brasil ainda não tenha sido confirmado.
Duas possíveis rotas pela Amazônia
Até o momento, existem duas propostas principais para o traçado do trem em território peruano.
A primeira proposta foi apresentada durante as negociações entre a China e o Brasil em 2024. De acordo com esse plano, o trem partiria de Assis Brasil, no estado brasileiro do Acre, próximo à tríplice fronteira com o Peru e a Bolívia. De lá, atravessaria a Amazônia peruana pela região de Madre de Dios e seguiria para o norte, cruzando os Andes por Cusco, Ayacucho, Huancavelica, Junín e Pasco, até chegar ao porto de Chancay.
Diversas análises alertam que essa rota pode impactar severamente áreas naturais protegidas e territórios indígenas. Investigações realizadas por organizações como a CooperAcción e a GRAIN indicam que a rota proposta colocaria em risco pelo menos 15 áreas naturais protegidas, incluindo o Parque Nacional Manu, a Reserva Comunal Amarakaeri, a Reserva Nacional Tambopata e o Parque Nacional Bahuaja Sonene.
Além disso, o projeto poderá impactar nove áreas de conservação regionais, 69 áreas de conservação privadas, 1793 comunidades camponesas e 19 comunidades indígenas, bem como a Reserva Territorial Madre de Dios, lar de povos indígenas em isolamento e em fase inicial de contato.
A segunda alternativa prevê uma rota pela região amazônica de Ucayali. Essa ideia remonta a 2014, quando o governo brasileiro propôs a construção de uma ferrovia ligando Pucallpa, no Peru, a Cruzeiro do Sul, no Brasil. Nesse cenário, o trem partiria de Chancay, atravessaria os Andes centrais até chegar a Pucallpa e, em seguida, seguiria para o território brasileiro.
Preocupações ambientais e sociais
Especialistas alertam que infraestruturas desse tipo podem desencadear mudanças profundas na Amazônia. José De Echave, pesquisador da CooperAcción, destaca que a principal preocupação é o impacto que o projeto teria em um dos ecossistemas mais importantes do planeta.
Segundo o especialista, grandes projetos de infraestrutura na Amazônia frequentemente abrem caminho para economias ilegais, como mineração informal, extração ilegal de madeira ou tráfico de drogas.
O geógrafo Pedro Tipula, do Instituto para o Bem Comum, também alerta que a construção de uma estrada em áreas relativamente preservadas gera impactos que se estendem muito além do trajeto da infraestrutura. A área de influência do projeto pode impulsionar a expansão de assentamentos humanos, atividades extrativistas e conflitos territoriais.
Experiências passadas reforçam essas preocupações. A Rodovia Interoceânica do Sul, construída há mais de uma década, é citada como um dos fatores que facilitaram a expansão da mineração ilegal em La Pampa, na região de Madre de Dios.
Segundo a pesquisadora Raquel Neyra, do Instituto de Natureza, Terra e Energia da Pontifícia Universidade Católica do Peru, uma ferrovia cruzando a Amazônia poderia causar “danos ambientais colossais”. Isso se deve não apenas à construção da ferrovia em si, mas também ao crescimento de cidades, rotas comerciais e novas operações de mineração que poderiam surgir ao longo do corredor.
Além disso, especialistas alertam para o risco enfrentado pelos povos indígenas em isolamento e em contato inicial que vivem em áreas potencialmente afetadas.
Um projeto em meio a tensões geopolíticas
Além dos impactos ambientais, a Ferrovia Bioceânica também possui uma dimensão geopolítica. Analistas apontam que o projeto faz parte da crescente disputa entre a China e os Estados Unidos pela influência econômica na América Latina.
A China aumentou significativamente seus investimentos em infraestrutura na região, incluindo portos, rodovias, ferrovias, redes de energia e projetos de energia renovável. Segundo especialistas, esses investimentos também visam garantir o acesso a minerais estratégicos, como cobre e lítio, que são cruciais para a transição energética global.
Nesse contexto, a Ferrovia Bioceânica poderia se tornar uma peça fundamental dentro de uma rede de corredores logísticos que conectam a América do Sul aos mercados asiáticos.
Apesar do interesse político e econômico, o projeto ainda está em fase preliminar. As autoridades regionais de Ucayali indicaram que ainda não há um traçado final aprovado, estudos de impacto ambiental concluídos ou um modelo financeiro estruturado.
Por ora, o futuro da Ferrovia Bioceânica depende de estudos técnicos, ambientais e sociais para determinar sua viabilidade. Enquanto isso, o debate continua entre aqueles que veem esse projeto como uma oportunidade para a integração e o desenvolvimento regional e aqueles que alertam que ele pode inaugurar uma nova era de pressão sobre a Amazônia e seus povos.
Fonte: El Clarín – Chile e Mongabay

