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Estado brasileiro faz investimento bilionário para virar o maior produtor de proteína animal do mundo; plano já saiu do papel mas falta mão-de-obra para 12 mil vagas abertas

Tem regiões que crescem no silêncio. E tem o oeste do Paraná, ali pertinho da tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai, que está fazendo o contrário: está dizendo em voz alta que quer dominar o jogo. A meta é pesada, em até 20 anos, virar a maior produtora de proteína animal do mundo. E não é “vontade solta”: tem articulação, números, cooperativas bilionárias e um roteiro claro de crescimento.

A estratégia está sendo puxada por lideranças empresariais que se organizaram num modelo de articulação regional.

A ideia é mostrar tudo o que o território já faz e faz bem, colocar isso em sinergia e, com isso, deixar a região na linha de frente do segmento no país.

Por que indústrias faz investimento pesado nesse Estado brasileiro?

Hoje, a região oeste responde por mais da metade da produção avícola e da suinocultura do Paraná, impulsionada por cooperativas do agro que movimentam cifras enormes.

E tem mais: cinco das dez maiores cooperativas do segmento no Brasil e que ainda entram na lista das 100 maiores cooperativas agrícolas do mundo, estão justamente ali. Isso ajuda a explicar por que o projeto é ambicioso.

A frase que virou o norte do plano foi dita sem rodeio pelo presidente do Programa Oeste em Desenvolvimento (POD), o industrial Rainer Zielasko:

“O Paraná é uma potência na produção de proteína animal, que é a transformação e agregação de valor da soja, do milho. Queremos em, no máximo 20 anos, sermos reconhecidos como os maiores produtores de proteína animal do mundo”.

Aqui, a lógica é direta: soja e milho viram ração; ração vira frango, suínos e peixe; e essa cadeia gera investimento, renda, exportação e força de industria.

Os números que colocam o “projeto potência” no mapa

O estado brasileiro em questão já chega forte na base produtiva. O Paraná tem:

  • Maior plantel de aves do Brasil, com 428,5 milhões de cabeças.
  • 3º lugar em produção de suínos, com 6,7 milhões de animais.
  • Na piscicultura, virou referência nacional e é o maior produtor de tilápias do país. A produção de peixes chega a 167,3 mil toneladas por ano, com 400 milhões de alevinos.

Zielasko resume o momento assim:

“Temos muito a crescer. Temos área, capacidade de crescimento sustentável e espaço de mercado para esse avanço. E existe um planejamento para que isso ocorra”.

E para não ficar preso só ao “olhar de dentro”, vale um complemento atual: a tilápia segue como a espécie mais cultivada do país. Dados do Anuário PeixeBR indicam que, em 2023, a produção brasileira de tilápia chegou a 579 mil toneladas, reforçando a dimensão desse mercado.

Em 2024, o setor continuou aquecido e, segundo análise baseada no mesmo anuário, a tilápia cresceu forte — e o presidente executivo da PeixeBR explicou o movimento assim: “Isso significou produção recorde em 2024”.

POD: o “motor organizador” que completa 10 anos e virou referência

O POD, que acabou de completar 10 anos, virou um dos principais modelos de articulação regional do país — com metodologia replicada Brasil afora.

A construção do modelo se inspirou em experiências bem-sucedidas de fora, com uma premissa simples: regiões unidas tendem a enfrentar crise com mais facilidade.

E a leitura do próprio Zielasko sobre o efeito disso é otimista e direta:

“E tem dado certo, no oeste (do Paraná) isso tem acontecido. Crescemos na casa dos dois dígitos por ano. Estamos entre as regiões que mais crescem no Brasil, com geração de emprego, renda e desenvolvimento consolidado”.

Nos últimos anos, o POD também passou a integrar o Programa Paraná Produtivo, dentro de uma estratégia estadual de desenvolvimento regional.

Faltam pessoas para trabalhar: 12 mil vagas de emprego para suprir mão-de-obra

Crescer rápido tem custo e um deles está batendo forte: mão de obra.

Hoje, são cerca de 12 mil vagas abertas que não conseguem ser preenchidas. E não é só “falta de candidato”: o desafio é atrair profissionais sem explodir a infraestrutura urbana dos municípios menores.

Nas palavras de Zielasko:

“No POD agimos em parceria com as instituições de ensino, com o segmento industrial, com o poder público, pensando e propondo ações para promover esse preenchimento de vagas sem provocar um caos social. É um dos nossos maiores desafios: atrair profissionais sem colapsar os municípios. Essa necessidade de novos trabalhadores deve ampliar nos próximos anos com as nossas expectativas de crescimento”.

A região tem 50 municípios, quase todos voltados ao agro. E 47 deles têm menos de 100 mil habitantes. Mesmo assim, o PIB regional já passa de R$ 100 bilhões — e o plano é ir muito além.

Juntos, a demanda sai do papel: como funciona a pressão organizada

O POD não decide políticas públicas, mas reúne os setores para construir demanda com peso coletivo — e isso muda o jogo na hora de pedir infraestrutura, programas e prioridades.

Zielasko descreve assim:

“O POD reúne os mais diversos segmentos para pensarem juntos nas soluções dos problemas. São setores que se organizam para reivindicar políticas públicas, investimentos. Não temos poder deliberativo, mas juntos somos mais fortes e chegamos mais longe porque uma demanda regional, quando defendida pela coletividade, tem mais chances de sair do papel e isso interfere diretamente no crescimento”.

Israel como espelho: dá para fazer muito mais

No início do ano, antes da escalada do conflito no Oriente Médio, uma comitiva ligada ao programa esteve em Israel. E a comparação virou argumento de ambição:

“Israel tem o mesmo tamanho do oeste do Paraná, metade é deserto e o PIB deles é 33 vezes maior que o nosso. Ou seja, podemos fazer muito mais e para isso contamos com polos importantes de inovação e tecnologia ligados ao POD, com reconhecimento nacional e internacional. Conciliado a essa troca de experiências com outros países e outros modelos de iniciativas regionais, temos crescido de forma exemplar”.

Logística travando crescimento: 700 km até o porto e a pressão por obras

Quando a conversa vira competitividade global, o tema “logística” aparece na primeira frase. A região fica no extremo oposto do Porto de Paranaguá, principal canal de exportação do estado e o segundo maior do país. São cerca de 700 quilômetros entre produção e porto.

Com as novas concessões rodoviárias do Paraná, o setor mira a duplicação completa da BR-277, eixo central de escoamento.

O Ministério dos Transportes destacou que o lote de concessão prevê mais de 400 km de duplicações, justamente para reforçar o corredor de ligação entre o Oeste e o litoral.

E é nessa linha que o presidente da Fiep, Edson Vasconcellos, reforçou a necessidade de obras:

“Precisamos de soluções importantes para a trafegabilidade. Obras, duplicações de rodovias, ferrovias”.

Nova Ferroeste: a aposta grande para destravar grãos, contêiner e proteína

Além das estradas, o projeto que pode mudar a escala de competitividade regional é a Nova Ferroeste. Segundo o material oficial do projeto, o novo traçado prevê 1.567 quilômetros, conectando Maracaju (MS) a Paranaguá, com ramais como Foz do Iguaçu–Cascavel e Chapecó–Cascavel. A promessa é virar um dos maiores corredores logísticos do país.

O projeto também se conecta a outra ambição: o corredor ferroviário bioceânico, ligando Paranaguá a Antofagasta (Chile), encurtando rotas e reduzindo custo — ponto-chave para exportar proteína com margem melhor.

E não é só “sonho de papel”: os produtos do oeste paranaense (principalmente proteínas) já chegam a mais de uma centena de países.

Cooperativas no comando: quem banca e puxa a fila do crescimento e investimento

O avanço almejado tem participação direta das cooperativas. Somente as maiores instaladas na região — Lar, Copacol, C.Vale, Frimesa e Coopavel — somam faturamento bruto anual de R$ 65 bilhões e crescem acima de 10% ao ano.

Esse bloco agroindustrial também conta com apoio da diretoria da Fiep. E a proposta do presidente Edson Vasconcellos é percorrer o estado para “despertar vocações industriais”, sensibilizando gestores municipais a pensarem políticas de industria, parques produtivos e medidas para segurar plantas nas cidades.

Ele resume a lógica assim:

“E isso vale para o oeste, que tem uma vocação agro consolidada e um trabalho bem desenvolvido, estruturado e de referência. Não sou do segmento agro, mas quero que o setor avance porque fomenta toda a economia. Estamos em um estado com vocação ao agronegócio”.

E reforça o alerta ao poder público:

“Se um supermercado fechar na cidade, certamente outro virá, mas se uma Frimesa (com sede em Medianeira. no oeste paranaense) fechar as portas, dificilmente outra virá para se instalar no local”.

Suínos no centro da expansão: a Frimesa quer virar gigante latino-americana

Entre as metas de crescimento, a suinocultura aparece como um dos motores principais.

A Frimesa é o quarto maior player do mercado suíno do Brasil. Ela emprega 9 mil pessoas, tem mais de 2 mil cooperados e fechou 2022 com faturamento bruto de R$ 5,6 bilhões.

A cooperativa inaugurou uma nova planta industrial em Assis Chateaubriand (PR), com o objetivo de se tornar o maior frigorífico da América Latina em abate de suínos.

Na etapa final, a capacidade projetada é de 15 mil animais por dia — e o plano de funcionamento pleno mira o fim desta década.

No momento, a operação citada gira em torno de 3 mil suínos/dia, com expectativa de chegar a 5 mil suínos/dia até dezembro. E o gargalo volta a ser gente: falta trabalhador também.

O CEO Elias Zydek explicou que a Frimesa quer avançar em mercados que, até pouco tempo, estavam travados para proteínas brasileiras por causa do status sanitário. O ponto-chave era febre aftosa.

Foi do POD a mobilização que resultou, em 2020, no Paraná reconhecido como área livre da doença sem vacinação. E Zydek resumiu o impacto assim:

“Antes atingíamos 40% do mercado, hoje alcançamos 100% e estamos abrindo caminho para importantes compradores como Japão e Coreia do Sul”.

Ocepar: potência, sim mas investimentos com freios reais (água, sanidade e concentração)

Nem todo mundo compra a ideia de “maior do mundo” sem ressalvas.

O presidente da Ocepar, José Roberto Ricken, reconhece a força regional, mas lembra que a liderança mundial enfrenta limitações:

“Em alguns municípios temos dificuldades para autorização de outorga de uso de água. Existem pandemias no setor pecuário, talvez não dê para concentrar tudo (a produção) numa única região, mas o oeste já representa a maior parte da produção de proteína animal do Paraná”.

Ricken entende que suínos têm mais condição de avançar nos próximos anos, sobretudo com abertura de novos mercados.

Ele detalha a distribuição estadual:

  • Em suínos, do total da produção estadual, 56% estão nas cooperativas e, dessa fatia, 32% ficam no oeste.
  • Na avicultura, 44% da produção do Paraná está nas cooperativas e o oeste responde por 40% dos plantéis e abates.
  • Em peixes, cooperativas recebem 30% da produção paranaense e 28% estão na região.

E ele deixa uma observação direta:

“Dizer que será a maior do mundo é um desejo, não sei como está sendo avaliado isso, mas existem muitas limitações a serem vencidas”.

Hoje, das 140 cooperativas agroindustriais paranaenses, 80 são de produção animal e 60 de produção vegetal (soja, milho, trigo e outros cereais).

O setor tem 11 plantas de abate de frangos (oito no oeste) e cinco voltadas à suinocultura (quatro no oeste).

Para Ricken, o crescimento deve se espalhar também para sudoeste, noroeste e região central do estado, buscando sustentabilidade e segurança fitossanitária.

O problema na ponta: produtor descapitalizado, crédito curto e juros altos

Do lado de quem cria os animais (quem aloja, alimenta e prepara para o abate), a travada tem nome: descapitalização.

Segundo a avaliação da Faep/Senar, produtores paranaenses até melhoraram tecnologia e produtividade, mas enfrentam custos elevados e, mais recentemente, preços mais baixos de commodities e produtos de origem animal. A falta de crédito e os juros altos seguram a construção de novas estruturas — granjas, aviários e açudes.

A Faep defende uma melhor estruturação macro e micro da economia para permitir avanço. Afinal, o Paraná é o segundo maior produtor agrícola do país — e boa parte da força do estado vem justamente da transformação de grãos em proteína.

Investimento pesado: Estado brasileiro já uma potência e quer virar referência global

O que está em curso no oeste do paraná é uma combinação rara: base produtiva enorme, cooperativas fortes, ambição clara e pressão organizada por infraestrutura e logística.

Ao mesmo tempo, os desafios são do tamanho do sonho: falta gente (e os empregos sobram), há limitações ambientais e de água, riscos sanitários e uma necessidade real de investimento contínuo para manter competitividade global.

Se o plano de 20 anos vai cravar o título de “maior do mundo”, ninguém pode garantir agora. Mas uma coisa é difícil negar: a região já está jogando como quem quer ser gigante.

Fonte: Click, Petróleo e Gás – CPG

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