Especialista aponta desafios do Brasil entre EUA e China e destaca papel estratégico do Corredor Bioceânico
Durante a 1ª Jornada de Estudos Estratégicos do Comando Militar do Oeste (CMO), realizada em Campo Grande, o Coronel Veterano Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército (CEEEx), apresentou a palestra “Conjuntura Internacional”, analisando as dinâmicas de poder globais e seus reflexos sobre a segurança regional. O evento também contou com a participação do Professor Doutor Sandro Teixeira Moita, do Instituto Meira Mattos (IMM/ECEME), que abordou o tema “Cultura Estratégica – Chave para entender a incerteza global”.

Entre os principais temas debatidos, destacou-se a posição do Brasil diante da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China e a relevância estratégica do Corredor Bioceânico na ampliação das conexões comerciais do país com a Ásia e o Pacífico.
“O Brasil já é próximo da China, mesmo fora da Nova Rota da Seda”
Em entrevista à Rota Bioceânica News, o Cel. Paulo Roberto da Silva Gomes Filho destacou que, embora o Brasil não faça parte oficialmente da Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative), promovida pela China, isso não limita a parceria bilateral entre os dois países.
“O Brasil não estar na Nova Rota da Seda não significa que não tenha um enorme comércio com a China. Temos uma relação de alto nível, co-presidida pelos vice-presidentes de ambos os países. Essa estrutura garante um diálogo direto e estratégico”, explicou.
Para o coronel, a efetivação de rotas que liguem o Atlântico ao Pacífico, como o Corredor Bioceânico, pode fortalecer as exportações brasileiras, especialmente com destino à China, sem interferir diretamente nas relações diplomáticas entre os países.
“Uma rota que ligue o Atlântico ao Pacífico, com saída para o porto de Chancay no Peru, por exemplo, vai facilitar o comércio, mas isso não muda a natureza da nossa relação com a China. O Brasil continuará mantendo uma relação bilateral sólida, sem precisar integrar formalmente a Nova Rota da Seda”, afirmou.
“O Brasil precisa defender seus interesses em meio à disputa de potências”
Ao tratar da tensão crescente entre Estados Unidos e China, o especialista ressaltou que o Brasil, assim como outros países, sofre os efeitos dessa disputa global e precisa agir com habilidade política e visão estratégica.
“Todos os países do mundo tentam se adaptar a essa realidade de competição entre Estados Unidos e China. O Brasil tem na China seu maior parceiro comercial, mas está localizado em uma região sob forte influência norte-americana. Essa pressão tende a aumentar”, analisou.
O coronel defendeu que o país deve buscar equilíbrio nas relações internacionais, agindo com pragmatismo e autonomia.
“Cabe ao Brasil encontrar maneiras de lidar com essa pressão e defender seus próprios interesses. Às vezes, isso significa aproximar-se mais da China, especialmente nas questões comerciais; em outras, fortalecer o diálogo com os Estados Unidos. É uma posição delicada, que exige maturidade estratégica”, observou.
Impactos regionais e oportunidades para o Centro-Oeste
O militar também comentou o impacto dessa conjuntura sobre o Centro-Oeste brasileiro, especialmente em estados como o Mato Grosso do Sul, que possuem forte vínculo comercial com a China, principalmente nas exportações de celulose e carne.
“O uso futuro do Corredor Bioceânico vai ampliar ainda mais essa relação econômica. Mas é importante que o Brasil, ao usar portos como o de Chancay, esteja ciente das reações internacionais, sobretudo dos Estados Unidos, que historicamente veem a presença chinesa na América do Sul com desconfiança”, explicou.
Para o Cel. Paulo Roberto, a integração física e logística proporcionada pelo Corredor Bioceânico pode se tornar um instrumento de fortalecimento da soberania nacional, desde que o país adote uma estratégia clara de inserção internacional.
“Mais do que uma rota comercial, o Corredor Bioceânico é uma oportunidade de o Brasil se posicionar como protagonista na América do Sul, equilibrando sua diplomacia entre as grandes potências e garantindo desenvolvimento econômico regional”, concluiu.
O evento reforçou a necessidade de pensamento estratégico integrado entre política, economia e defesa, para que o Brasil possa atuar de forma autônoma no cenário global, transformando o Corredor Bioceânico em um vetor de crescimento e estabilidade regional.

