Entrevista com Mauricio Soria sobre Iquique e o Corredor Bioceânico: infraestrutura, turismo e economia
No Seminário Internacional da Rota Biocêanica e o 6º foro de Los Gobiernos Subnacionales del Corredor Bioceánico, evento realizado em Campo Grande, entre os dias 18, 19 e 20 de fevereiro, tivemos a oportunidade de conversar com o prefeito de Iquique, Mauricio Soria, que expressou sua disposição em expandir a infraestrutura do porto da cidade para atender às demandas do Brasil e de outros países sul-americanos. Segundo ele, o porto de Iquique já atende Paraguai e Bolívia, e a região possui uma vocação natural para o comércio internacional, impulsionada pela Zona Franca. No entanto, ele reconhece que, para receber o fluxo comercial do Brasil, especialmente do Mato Grosso do Sul, serão necessárias adequações.
De acordo com Soria, o presidente chileno Gabriel Boric instruiu seus ministros a trabalharem no desenvolvimento do Corredor Bioceânico. Essa iniciativa ganhou força após as visitas do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e do presidente paraguaio ao Chile. “Deu instruções específicas para que os ministros do Chile trabalhem no corredor bioceânico e em adequar as condições do norte chileno para receber o gigante que é o Brasil e um Paraguai que cresce fortemente”, afirmou o prefeito.
Impactos no Turismo
O setor turístico de Iquique já está sentindo os efeitos positivos do corredor. O prefeito mencionou a crescente presença de turistas brasileiros na região e destacou um evento recente: “Antes de vir a este fórum, vi as notícias sobre uma caravana de motocicletas de turismo saindo de Porto Murtinho e percorrendo o corredor bioceânico”. Segundo ele, o turismo deve se beneficiar antes mesmo do fluxo de cargas, pois o percurso de 1.800 quilômetros que liga o Atlântico ao Pacífico atravessa paisagens variadas e de grande apelo turístico.
“Em uma viagem de 1.800 quilômetros, você pode passar da selva do Pantanal ao deserto mais árido do mundo, atravessando o Chaco Paraguaio, a Pampa Argentina, a Cordilheira dos Andes e o Deserto do Atacama. Isso representa um potencial turístico muito forte”, destacou Soria.
Concorrência e Expansão Portuária
O prefeito também comentou sobre a concorrência do porto Chinês (Chancay que fica no norte do Peru) e dos outros portos peruanos. Ele ressaltou que, antes de 2030, o Porto de Iquique passará por um novo processo de licitação, permitindo investimentos na ampliação de sua capacidade. “Nosso objetivo é atender diretamente às demandas de Brasil, Paraguai, Bolívia e norte da Argentina, sem a necessidade de transportar cargas para outros portos mais distantes”, afirmou.
Sobre a concorrência com os portos peruanos, Soria acredita que a localização estratégica do norte chileno coloca Iquique em uma posição vantajosa. “Os portos importantes do Peru estão a 1.600 ou 1.700 quilômetros de Iquique. Se investirmos em infraestrutura, podemos reduzir tempo e custos logísticos para os países que dependem do Pacífico”, explicou.
O Papel da Bolívia
A Bolívia já utiliza o Porto de Iquique regularmente, especialmente para exportação de carne produzida em Santa Cruz de la Sierra. “Agora, o grande desafio da Bolívia é resolver seus problemas internos e de trânsito de mercadorias com o Brasil. Com o Chile, não há problema”, afirmou Soria, destacando que o corredor pode fortalecer ainda mais essa relação comercial.
O Legado de uma Visão Pioneira
Mauricio Soria também destacou o orgulho pelo trabalho de seu pai, um dos idealizadores do Corredor Bioceânico. “Ele foi um visionário que, nos anos 60, trouxe a ideia de transformar Iquique, como também, unir os oceanos Atlântico e Pacífico . Naquela época, a cidade não tinha sequer uma estrada para a capital”, relembrou. Segundo ele, o projeto demorou décadas para ganhar força, mas hoje é uma realidade abraçada pelos presidentes dos países envolvidos.
Com o avanço do corredor, Iquique se posiciona como um ponto estratégico para a integração sul-americana, consolidando-se como um hub de comércio internacional e turismo.