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Entre vulcões e rumo ao Pacífico: o trem que San Juan na Argentina está promovendo para chegar ao Chile

Um trem que atravessa vulcões, cruza os Andes em baixa altitude e conecta a Argentina ao Pacífico poderá, mais uma vez, remodelar o mapa logístico da região de Cuyo. A ideia, que pode soar como um cartão-postal turístico ou uma antiga história ferroviária, é, na verdade, um ambicioso projeto de infraestrutura que ganhou novo impulso recentemente entre os governos de San Juan, Mendoza e San Luis.

Por trás desse plano não há vagões de passageiros nem trens panorâmicos: trata-se de um corredor ferroviário de carga projetado para mineração, energia e comércio exterior, que permitiria o transporte da produção de San Juan e da região de Cuyo para os portos chilenos. A vantagem adicional: conectaria a província ao campo de petróleo e gás de Vaca Muerta.

O projeto visa construir uma linha férrea que serpenteia por entre vulcões no sul de Mendoza, cruzando a Cordilheira dos Andes pelo Paso El Planchón-Vergara, no departamento de Malargüe. De lá, a linha continuaria até o Chile, chegando à cidade de Curicó, abrindo assim uma rota direta para o Pacífico para a produção regional. Isso serviria como trampolim para a reativação das linhas férreas até as províncias de Cuyo.

Para San Juan, este projeto é estratégico, explicou Alejandro Martín, Secretário de Indústria, Comércio e Serviços da província. Ele não só permitiria o transporte de cobre das gigantes da mineração que planejam se instalar nos Andes, e de insumos essenciais para a indústria energética (calcário, areia), como também se alinha a uma iniciativa defendida anos atrás pelo atual governador, Marcelo Orrego, quando ele era deputado federal: o projeto ferroviário conhecido como Meridiano 68.

Essa proposta visa conectar Jáchal a Neuquén por ferrovia, criando um corredor que liga a indústria de mineração de San Juan a Vaca Muerta. Ao combinar isso com o projeto ferroviário binacional através de Planchón-Vergara, obtém-se o acesso aos portos do Pacífico.

Uma passagem estratégica entre vulcões

Ao contrário do historicamente congestionado Paso Libertadores, que é mais alto e mais difícil de navegar, a nova proposta de Cuyo para uma rota ferroviária até o Pacífico privilegia o sul do Paso de Mendoza. “Essa travessia oferece vantagens difíceis de igualar. Ela está localizada a cerca de 2.100 metros acima do nível do mar, bem abaixo dos 3.200 metros do Paso de Los Libertadores, o que reduz significativamente o risco de fechamentos devido à neve e permitiria que o trem operasse durante grande parte do ano”, disse Martín.

Vulcão Peteroa, o Paso Planchón ou o Paso Internacional Vergara.

A rota não requer túneis e, além disso, atravessa uma das paisagens mais deslumbrantes dos Andes. O trajeto planejado serpenteia entre os vulcões Planchón, Peteroa e Azufre, contornando as lagoas de Teno antes de descer para o vale chileno que leva a Curicó. De lá, a carga poderá seguir viagem até os portos do Pacífico por via terrestre.

O projeto é ambicioso: estima-se que necessite de um investimento de cerca de US$ 4 bilhões e leve de seis a sete anos para ser concluído. O jornal Mendoza Today noticiou que, na última sexta-feira, a Câmara de Comércio, Indústria e Agricultura de San Rafael organizou uma reunião e convidou o especialista Guillermo Murphy, que forneceu detalhes sobre o projeto.

A proposta prevê a utilização de um trem de bitola larga, ideal para o transporte de grandes volumes de carga e para a manutenção de velocidades competitivas em terrenos montanhosos. Essa característica técnica é crucial para o transporte de recursos pesados, que atualmente enfrentam altos custos operacionais no mercado.

O especialista afirmou que alguns minerais são muito caros para transportar por meios convencionais e são mais economicamente viáveis ​​se transportados por ferrovia. O fato é que a chamada de propostas marcou o início de um processo de negociação com organizações nacionais e internacionais — bem como com entidades privadas — para garantir o financiamento necessário.

O papel de San Juan

Para San Juan, o projeto assume especial relevância por estar diretamente ligado ao desenvolvimento ferroviário do Meridiano 68, uma iniciativa promovida há anos por Orrego.

Este plano propõe uma linha ferroviária que liga Jáchal a Neuquén, criando um corredor logístico que conecta a atividade mineira em San Juan com a bacia energética de Vaca Muerta.

“Apoiamos este projeto ferroviário porque ele está diretamente ligado ao Meridiano 68, que propõe um corredor vertical conectando San Juan a Neuquén, e de lá teria uma saída para o Chile através de El Planchón”, explicou Martín.

A iniciativa permitiria o transporte de areia para fraturamento hidráulico, cal de San Juan e outros suprimentos industriais para a Bacia de Neuquén, além de facilitar a movimentação de máquinas e produtos petroquímicos.

Mineração e acesso ao Pacífico

O potencial do projeto não se limita ao setor energético. Em San Juan, o avanço de grandes projetos de cobre, como o distrito de Vicuña, que inclui Josemaría e Filo del Sol, e outros projetos que poderão surgir no futuro, exige o desenvolvimento de corredores logísticos capazes de transportar grandes volumes de minerais para portos de exportação. O caso de Los Azules é diferente porque a empresa gestora do projeto sempre afirmou que seu plano é exportar o cobre pelo Atlântico.

Mas outros projetos de mineração na Serra de San Juan também se beneficiariam muito. Um trem de carga para o Chile surge como uma alternativa estratégica para conectar a produção no oeste da Argentina com terminais marítimos como San Antonio ou Valparaíso.

O projeto também permitiria a consolidação dos fluxos de carga de diferentes setores — energia, mineração e agronegócio — para atingir a escala necessária para justificar um investimento dessa magnitude.

Um projeto de longo prazo

O jornal online MDZ, que também noticiou recentemente o projeto ferroviário, indicou que as províncias de Cuyo planejam lançar licitações para o projeto preliminar de engenharia da travessia da montanha até o final deste ano. Isso permitiria determinar o custo real e verificar se há interesse privado no projeto, em um contexto no qual o governo Milei se opõe a obras públicas. Para chegar a esse valor, planejam utilizar o Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), buscando uma parceria entre o setor público e empresas privadas internacionais, informou o MDZ.

O plano inclui a modernização dos trilhos existentes, a restauração de ramais abandonados e a construção de novos trechos ferroviários, incluindo a ligação entre Malargüe e a Bacia de Neuquén. Para San Juan, no entanto, a iniciativa já representa mais do que apenas um projeto de infraestrutura: é parte de uma visão logística mais ampla, explicou Martín.

Um corredor que, se algum dia se concretizar, poderá ligar Vaca Muerta, a indústria mineira de San Juan e os portos do Pacífico através de um trem binacional que atravessará a cordilheira entre vulcões e em baixas altitudes.

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Fonte: Tiempo de San Juan

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