Empresário Jaime Vallér analisa potencial e limites da Rota Bioceânica e defende prioridade para expansão ferroviária
Durante entrevista ao Rota Bioceânica News, o empresário Jaime Vallér, proprietário do curtume Qually Peles e do jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, apresentou uma visão técnica e crítica sobre o futuro da integração logística sul-americana e os impactos esperados com a consolidação da Rota Bioceânica.
Com a previsão de conclusão da ponte internacional para 2026 e início da operação completa entre o final de 2027 e começo de 2028, Vallér reforça que toda obra pública estruturante traz impactos positivos, mas pondera que ainda há questões estratégicas que podem limitar o pleno potencial do corredor.
“A rota vai trazer progresso, mas não tudo o que se espera”, diz Valler
Para o empresário, a Rota Bioceânica representa um avanço para Mato Grosso do Sul, mas ainda enfrenta entraves que podem restringir sua competitividade no cenário internacional, especialmente em relação ao comércio com a China, principal mercado consumidor para diversos setores exportadores.
O principal mercado de interesse dos produtores, a China, não deve ser diretamente beneficiado pelo corredor no curto prazo. Ele aponta que a ausência de relações diplomáticas entre China e Paraguai cria um entrave significativo.
“A China não tem parceria diplomática com o Paraguai. Eles não querem negócio passando por lá. Preferem rotas via Peru ou Bolívia”, afirmou.
Outro ponto levantado é o limite operacional da rodovia no trecho chileno, onde apenas carretas simples poderão trafegar. Restrição que, somada a longos períodos de nevasca que paralisam o trecho andino, reduz a competitividade logística.
Ferrovia como solução estratégica: “É o caminho mais promissor”
Um dos principais pontos defendidos por Vallér é que a infraestrutura ferroviária deveria receber prioridade no debate logístico nacional. Ele cita especificamente a ferrovia Corumbá–Três Lagoas, conhecida como Malha Oeste, como obra essencial para garantir competitividade ao estado.
“A obra que tem de ser mais eminente é a ferrovia. As terras já estão desapropriadas, a linha está traçada. Só falta trocar dormentes e aumentar a bitola.”
Para ele, no contexto da integração com a China e de grandes volumes de carga, a ferrovia é a alternativa mais eficiente e econômica.
“Hoje todo mundo briga por custo. O frete ferroviário é bem mais barato que o rodoviário. Acredito que o desenvolvimento ferroviário vai ser muito grande.”
Vallér observa ainda que os investimentos chineses em infraestrutura logística na América do Sul reforçam sua tese: “os portos que os chineses compraram e modernizaram foram no Peru, nenhum no Chile. Eles estão vendo futuro onde tem ferrovia, porque vão puxar a mercadoria de trem, muito mais barato e volumoso.”
Movimento empresarial em direção ao Paraguai
Questionado sobre a migração de empresas para o Paraguai, Vallér reconhece que o empresariado busca vantagens fiscais e logísticas: “o movimento do empresário sempre é a China, porque tem consumo e dinheiro. São bons pagadores. Mas eles não vão querer levar produto via rodovia. Se não tiver acomodação diplomática, vão preferir ferrovia.”
O empresário também apontou que muitos produtores estão deslocando operações para o Paraguai por questões tributárias, buscando escapar do chamado “custo Brasil”, que reduz a competitividade das exportações.
Sugestão: “Rodovia da Seda”
Entre as ideias apresentadas, o empresário sugeriu que a rodovia brasileira do corredor receba o nome “Rodovia da Seda”, reforçando a referência histórica e comercial ligada ao mercado asiático. “Eu sugeri que nossa rodovia se chamasse Rodovia da Seda. Onde você vai? Vou para a Rodovia da Seda. Já dizia que vou para a China.”
Segundo ele, apesar da ampla divulgação, ainda há pouco conhecimento nacional sobre a importância estratégica da rota.
A análise
A análise de Jaime Vallér evidencia que, embora a Rota Bioceânica represente um avanço relevante para a infraestrutura sul-americana, ainda existem desafios diplomáticos, logísticos e estruturais que, segundo sua visão, podem limitar o impacto do corredor no comércio com a China.
Para o empresário, a competitividade do Brasil depende diretamente da ampliação ferroviária e da redução de custos logísticos, fatores decisivos para que Mato Grosso do Sul e a produção nacional alcancem novos mercados com eficiência.

