Chile e Brasil estão avançando na integração regional, enquanto o Peru fica para trás
Enquanto o Peru permanece focado em sua agenda interna, Chile e Brasil começaram a tomar medidas estratégicas para construir uma aliança logística e comercial com foco direto na Ásia. O ponto de partida foi o encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, realizado na Cidade do Panamá à margem do Fórum Econômico Latino-Americano e Caribenho, que reuniu presidentes, chefes de governo e líderes regionais para discutir integração, investimento e crescimento. O presidente peruano, José Jerí, não compareceu ao evento.
O encontro, que ocorreu na capital panamenha durante o fórum regional, foi apresentado por Kast como um diálogo “além das diferenças ideológicas”, com foco na integração regional, conectividade física, comércio e cooperação estratégica entre os Estados. A mensagem foi clara: a relação Chile-Brasil não é concebida como um vínculo político temporário, mas como um projeto de integração estrutural de longo prazo.
A Bolívia aderiu a essa dinâmica, com o presidente Rodrigo Paz lançando uma proposta tanto política quanto pragmática: oferecer ao Chile seus “portos” — em termos de conectividade territorial, corredores e integração logística — para facilitar as conexões com o Brasil. A iniciativa não é meramente simbólica: busca transformar a Bolívia em um polo de integração, deixando de ser apenas um território de trânsito para se tornar um participante ativo no corredor bioceânico.
Kast e os corredores: integração sem o Peru como eixo central
No Panamá, a mensagem de José Antonio Kast não foi meramente diplomática: foi geoestratégica. Referindo-se ao seu encontro com Lula, o presidente eleito do Chile enfatizou a necessidade de avançar nos corredores de integração física, logística e comercial que ligam o Brasil ao Pacífico, com uma abordagem pragmática para a competitividade regional.
O que importa não é apenas o conceito de integração, mas a arquitetura territorial que ele propõe. Kast não apresentou o Peru como o eixo natural dessa conectividade, mas abriu explicitamente as portas para outros países e outras rotas: a Bolívia como elo territorial, corredores alternativos pelo norte do Chile e integração multimodal com projeção transoceânica.
Em termos práticos, a proposta visa uma rede de integração onde o Chile busca se tornar a principal porta de entrada do Brasil para o Pacífico, sem depender estruturalmente do tradicional eixo amazônico que atravessa o território peruano. Trata-se de uma reformulação do mapa regional: menor dependência do corredor Peru-Brasil, maior diversificação de rotas e maior controle chileno sobre os principais portos do Pacífico.

E o Peru? Chancay não basta
O avanço do Chile como corredor do Pacífico em direção ao Brasil evidencia um paradoxo: o Peru possui um dos ativos estratégicos mais importantes da região — o megaporto de Chancay — mas carece de uma estratégia sistemática de integração regional que o conecte organicamente ao Cone Sul e ao Brasil.
Chancay tem potencial para ser um centro logístico, mas esse potencial não se traduziu em: corredores bioceânicos operacionais, acordos comerciais estratégicos, diplomacia econômica ativa e integração produtiva regional.
O porto existe. A estratégia nacional, não.
O acordo de livre comércio que nunca aconteceu
O problema estrutural é o comércio. O Peru não possui um Acordo de Livre Comércio com o Brasil, a maior economia da América do Sul. O processo de negociação do chamado Acordo de Aprofundamento Econômico está paralisado há quase uma década, em decorrência do impacto político e institucional do escândalo Lava Jato.
Do setor privado, o alerta tem sido claro: sem este acordo, o Peru perde competitividade, integração produtiva e vantagem logística. O comércio bilateral poderia dobrar ou triplicar com um acordo de livre comércio em funcionamento, mas o processo está paralisado pela desconfiança, crise política e instabilidade institucional.
A oportunidade perdida para a integração física
Isso não é novidade. Anos atrás, Lula lançou o Plano Sul-Americano de Infraestrutura Integrada, que previa cinco grandes rotas de integração regional, duas delas atravessando o território peruano. O objetivo era claro: conectar o Atlântico ao Pacífico por meio de corredores multimodais.
Essa estratégia foi perdendo força com o tempo.
Hoje, o Brasil retoma a integração regional, mas não mais com o Peru como eixo central automático, e sim com uma abordagem mais flexível, diversificada e seletiva.
Brasil e o novo poder de negociação
Somando-se à equação logística, há um fator geoeconômico crucial: o Brasil possui a segunda maior reserva mundial de elementos de terras raras, atrás apenas da China. Em um contexto de guerras comerciais, altas tarifas e tensões com os Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, esse estoque de minerais críticos torna-se um ativo estratégico nas negociações globais.
O Brasil oferece mais do que apenas mercados. Oferece segurança de abastecimento, minerais críticos e vantagens geoeconômicas.
Isso a posiciona como um ator central na nova arquitetura comercial global.

O que diz o Estado peruano?
Em teoria, o Peru tem capacidade institucional para responder.
Os dois ministros principais são Aldo Martín Prieto Barrera, Ministro dos Transportes e Comunicações (MTC), responsável pela articulação de corredores físicos e infraestrutura logística regional, e Teresa Mera Gómez, Ministra do Comércio Exterior e Turismo (Mincetur), responsável pela estratégia de comércio internacional e pela negociação de acordos como o TLC Peru-Brasil.
Contudo, não há uma resposta pública coordenada. A ausência de uma estratégia visível contrasta fortemente com o ativismo diplomático do Chile e o planejamento estrutural do Brasil.
O preço da instabilidade
A explicação é estrutural: alta rotatividade política, grande rotatividade ministerial e instabilidade institucional.
A integração regional não se constrói com anúncios, mas sim com continuidade política, acordos de longo prazo, diplomacia técnica, implementação sustentada e previsibilidade regulatória.
E é aí que o Peru perde competitividade.
Fonte: Caretas

