Campo Grande e a Rota Bioceânica: como uma ponte e 3.250 km de asfalto tentam unir dois oceanos
Entre os dias 18 e 20 de fevereiro, Campo Grande abrigará um evento que pretende transformar mapas e discursos em ação: o Seminário Internacional da Rota Bioceânica e o 6º Foro de los Gobiernos Subnacionales del Corredor Bioceánico. A reunião, promovida pelo Governo de Mato Grosso do Sul com apoio da Fiems e do Sebrae/MS, ocorrerá no Centro de Convenções Rubens Gil de Camillo, um lugar que, até agora, era mais conhecido pelos seus cafés fortes e ar-condicionado gelado do que pelas articulações internacionais.
A estrada até o pacífico – A estrela do seminário é o Corredor Bioceânico de Capricórnio, um trajeto rodoviário de 3.250 km que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico. A rota atravessa Mato Grosso do Sul, Argentina, Paraguai e Chile, terminando em portos chilenos como Antofagasta e Iquique. Na prática, é uma tentativa de transformar as exportações brasileiras em algo mais direto – sem depender exclusivamente dos portos do Sudeste.
Mas a promessa do corredor não é só sobre caminhões. Jaime Verruck, secretário da Semadesc, explica que o objetivo é promover desenvolvimento econômico e competitividade para as regiões envolvidas. “Cada país tem um papel fundamental para consolidar a rota. Vamos discutir como isso pode beneficiar as economias locais nos próximos dois anos”, diz Verruck.
Enquanto isso, a Ponte Bioceânica, que conectará Porto Murtinho (Brasil) a Carmelo Peralta (Paraguai), já está 65% concluída. Os organizadores do seminário devem repetir o percentual durante o evento como um mantra, já que a ponte é o símbolo mais visível da integração prometida.
Diplomacia de auditório – O seminário também será uma oportunidade para testar a capacidade da região de lidar com os desafios de um projeto multinacional. Entre painéis e reuniões técnicas, representantes do Brasil, Paraguai, Argentina e Chile tentarão fechar acordos e ajustar ponteiros sobre infraestrutura, alfândega e tecnologia.
A abertura oficial, no dia 18, contará com a assinatura de um Termo de Cooperação entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai. Nos dias seguintes, haverá debates sobre inovação, impacto social e a apresentação do Plan Maestro, documento que ambiciona transformar a rota em algo mais do que um traçado em mapas.
No encerramento, previsto para o dia 20, será divulgada a “Carta de Campo Grande”, um título que já soa mais grandioso do que os orçamentos disponíveis. O documento promete consolidar os principais avanços do evento e reafirmar o compromisso dos países com o projeto.
A realidade por trás da integração – Para além do entusiasmo oficial, a Rota Bioceânica é um lembrete de como o Brasil ainda luta para se conectar ao resto do continente. A integração regional, apesar de seu potencial econômico, costuma tropeçar em burocracias, disputas políticas e prioridades divergentes entre os países.
O seminário, no entanto, sugere que a ambição ainda existe. E, se tudo der certo, o Corredor Bioceânico poderá se tornar mais do que um projeto estratégico: será um atalho entre dois oceanos e uma nova rota para quem, há décadas, dirige em círculos pelas velhas estradas do Mercosul.
Fonte: A Crítica