Braz Melo: “A Rota Bioceânica transforma Dourados de fim de linha em ponto de partida para o mundo”
Dourados (MS) – Engenheiro civil formado em 1971 pela Faculdade de Engenharia Souza Marques (RJ), Antônio Braz Genelhu Melo marcou a história de Dourados ao aplicar conhecimento técnico em gestão pública. Prefeito por dois mandatos (1989–1992 e 1996–2000) e vice-governador de Mato Grosso do Sul em 1994, Braz se notabilizou por projetos estruturantes, como os Centros de Educação Unificados (CEUs), a Universidade da Vida e o primeiro centro homeopático público do país. Reconhecido nacionalmente como “Melhor Prefeito do Brasil” em 1990 e 1991, ele agora revisita sua trajetória no contexto da Rota Bioceânica, projeto que acompanha há mais de três décadas.
Primeiros passos da integração
Braz Melo recorda que esteve ao lado de Jorge Soria, prefeito de Iquique (Chile), e de lideranças paraguaias e argentinas nas primeiras tratativas do corredor.
“Quando fui vice-governador, em 1995, recebi o Soria em Dourados e depois levei uma delegação oficial a Iquique. Ele atravessava o continente de carro para mostrar a importância desse projeto. Também não posso esquecer de Juan Carlos Wasmosy, presidente do Paraguai, que abriu as portas para o Mato Grosso do Sul. Foi nesse momento que Dourados se tornou a primeira cidade-irmã de Iquique”, relembra.

Visão estratégica: de fim de linha a ponto de partida
Segundo Braz, a rota inverte a lógica geográfica e econômica de Mato Grosso do Sul. “Deixaremos de ser o final da linha para nos tornarmos o início do caminho rumo à China, à Ásia e à Europa. Isso muda a lógica do comércio, reduz distâncias em até 8 mil quilômetros e abre oportunidades para todo o Cone Sul do continente”, afirmou.
Educação e desenvolvimento social como referência
Ao relembrar seus projetos educacionais, o ex-prefeito destacou como experiências locais podem inspirar políticas ligadas à Rota Bioceânica. “Quando assumi a prefeitura, havia 10 mil crianças fora da escola. Criamos 11 grandes Centros de Educação Unificada, onde os alunos passavam o dia todo, com alimentação e atividades. Esse modelo foi copiado em São Paulo. Acredito que iniciativas assim podem ser replicadas em outros países da rota, garantindo inclusão social e qualificação para o futuro”, explicou.
Potencial produtivo e oportunidades para pequenos agricultores
Braz Melo também defendeu que os municípios sul-mato-grossenses aproveitem o corredor para diversificar sua produção. “Temos soja e milho em grande escala, mas pequenas culturas, como pimenta e melancia, podem gerar renda para famílias rurais e indígenas. Já vi experiências de comunidades indígenas cultivando pimenta com bons resultados. A Rota pode abrir novos mercados para esse tipo de produção”, disse.
Integração cultural e científica
Para o ex-prefeito, o impacto da Rota Bioceânica vai além da economia. “Esse envolvimento aproxima culturas, cria intercâmbio científico e fortalece o entrosamento entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Estamos na mesma linha do Trópico de Capricórnio, com muitas similaridades que podem ser exploradas em projetos conjuntos”, ressaltou.
Infraestrutura e desafios sociais

Com a experiência de engenheiro e gestor público, Braz Melo reconhece os desafios técnicos e sociais da obra. “Dourados abriga a maior reserva indígena dentro de um perímetro urbano no Brasil, com cerca de 20 mil pessoas. Hoje, já temos engenheiros e médicos formados entre eles. A Rota precisa ser pensada também como oportunidade de desenvolvimento inclusivo, valorizando essas comunidades. Em termos de infraestrutura, a interligação rodoviária e ferroviária será essencial para consolidar Dourados como polo logístico”, avaliou.
Um olhar para o futuro
Ao projetar os próximos 20 anos, Braz reforça a importância de planejar. “Participei do Eco 92, onde já se discutia sustentabilidade até 2010 e 2020. Agora falamos em 2050. A Rota é um projeto de longo prazo. Tenho orgulho de ter ajudado a plantar essa semente, mas cabe às novas gerações consolidar esse corredor que vai integrar povos, abrir mercados e transformar realidades”, concluiu.

