ArgentinaBrasilBusinessCorredor Bioceânico

Brasil percorre mais de 3.000 km na Rota Bioceânica, mas 700 km argentinos ainda são gargalo decisivo

A Rota Bioceânica, vista como uma das principais apostas logísticas da América do Sul, avança com força pelos territórios brasileiro e paraguaio, mas encontra obstáculos sérios na Argentina. A travessia de cerca de 700 km no país vizinho se transformou no ponto mais sensível da integração, afetando a fluidez comercial e a competitividade do corredor.

Com potencial de conectar o Atlântico ao Pacífico e fortalecer o comércio com a Ásia, a rota esbarra em estradas sem pavimentação, alfândegas ineficientes e desinteresse do governo central argentino, segundo mostrou a série especial da CNN Prime Time.

Brasil e Paraguai consolidam corredor, mas gargalo logístico está nos Andes argentinos

A equipe da CNN percorreu mais de 3.000 km da Rota Bioceânica, partindo do Pantanal brasileiro até a Cordilheira dos Andes.

Enquanto Brasil e Paraguai aceleram obras e integração aduaneira, a parte argentina ainda apresenta os maiores entraves.

Na região norte do país, faltam infraestrutura mínima, apoio político e até funcionários alfandegários suficientes para garantir fluxo contínuo de cargas.

A consequência é clara: retardos logísticos, insegurança no transporte e custos elevados, que comprometem a eficiência de toda a cadeia de exportação.

O papel geoeconômico do lítio e a disputa entre China e EUA

O trajeto da rota cruza o chamado Triângulo do Lítio — região que concentra quase metade das reservas mundiais do mineral, fundamental para baterias de carros elétricos e dispositivos móveis.

A Argentina, junto com Bolívia e Chile, detém 57 milhões de toneladas de lítio em reservas comprovadas, enquanto a China domina globalmente o refino e a fabricação de baterias.

A Rota Bioceânica poderia permitir que o mineral fosse beneficiado localmente, gerando cadeias produtivas sul-americanas — algo que interessa tanto à China quanto aos Estados Unidos, em disputa pelo domínio estratégico da energia armazenada.

Estradas de terra e aduanas lentas comprometem o projeto

Um dos maiores gargalos está na alfândega entre Paraguai e Argentina, que opera com poucos funcionários e horário limitado.

Após a travessia, os caminhões enfrentam 26 km de estrada de terra sem obras em andamento.

O estudo mais recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aponta 11 falhas críticas no trecho argentino, incluindo falta de equipamentos, deficiência nas vias de acesso e ausência de infraestrutura segura para transporte de carga.

Governo Milei promete ponte e gás, mas ignora pavimentação

Apesar de o governo Javier Milei ter prometido uma nova ponte na fronteira com o Paraguai e criado grupo para exportar gás de Vaca Muerta via rota, a pavimentação do trecho argentino ainda não tem cronograma definido.

Segundo a Casa Rosada, as obras não são de responsabilidade federal — revelando mais uma camada de desinteresse de Buenos Aires, que historicamente concentra investimentos no porto da capital e marginaliza o norte do país.

Norte argentino quer crescer, mas enfrenta abandono da capital

Empresários e acadêmicos da região norte defendem que a Rota Bioceânica pode transformar a economia local, mas apontam que a elite política de Buenos Aires ignora o projeto.

Com 40% da população e 80% das exportações concentradas em três províncias do centro do país, a lógica econômica argentina gira em torno do porto da capital, dificultando apoio institucional à integração com os vizinhos.

Apesar disso, lideranças locais continuam buscando saídas, como o professor Alejandro Safarov, que lidera rede de estudos sobre o corredor, e empresários como Federico Valejo, que investem no desenvolvimento industrial do norte argentino com foco em conectividade, internacionalização e geração de divisas.

Fonte: Click Petróleo e Gás – CPG

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *