Brasil, Paraguai, Argentina e Chile apostam na Rota Bioceânica como alternativa para exportações
Desde a última segunda-feira (18), Campo Grande se tornou o centro das discussões sobre um dos projetos de infraestrutura mais ambiciosos da América do Sul. O Seminário Internacional da Rota Bioceânica e o 6º Foro de Los Gobiernos Subnacionales del Corredor Bioceânico reuniram autoridades, empresários e especialistas no Centro de Convenções Arquiteto Rubens Gil de Camillo, onde, ao longo de três dias, o tom predominante foi de otimismo – com algumas ressalvas pragmáticas.
Na cerimônia de abertura, realizada na terça-feira (19), o governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, resumiu a importância do projeto. “Este novo corredor não é apenas uma via de transporte, mas um elo de fraternidade e cooperação entre os países.” O evento contou com a presença da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, que recebeu elogios pela condução das negociações do governo federal sobre a infraestrutura da rota.
A Rota Bioceânica se estenderá por 3.320 quilômetros, ligando Mato Grosso do Sul ao Oceano Pacífico, permitindo que exportações brasileiras cheguem ao mercado asiático de forma mais rápida e competitiva. No Brasil, o corredor atravessará oito municípios sul-mato-grossenses, consolidando o estado como peça central da logística sul-americana.
Mas para que essa integração funcione na prática, ainda há desafios estruturais.
Visão geral do auditório durante o Seminário Internacional da Rota Bioceânica, onde especialistas discutem os impactos econômicos e logísticos do corredor bioceânico.
Ferrovia, burocracia e incêndios: os obstáculos da integração – Entre os temas mais discutidos no seminário, dois ganharam destaque: a conexão ferroviária entre Brasil e Bolívia e o combate aos incêndios florestais na fronteira. Na manhã de quarta-feira (19), Riedel e o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação, Jaime Verruck, reuniram-se com o governador de Santa Cruz, na Bolívia, Mario Aguilera, para tratar desses assuntos.

Os incêndios que avançam pelo Pantanal todos os anos não respeitam fronteiras. Tanto o Brasil quanto a Bolívia sofrem com as queimadas que atravessam seus territórios. “Todos os anos enfrentamos incêndios que começam de um lado da fronteira e avançam para o outro. Nossa proposta é criar um sistema integrado de monitoramento e resposta para combater o fogo de maneira mais eficiente”, explicou Riedel.
A questão ferroviária também esteve no centro das discussões. Atualmente, a Ferrovia Oriental, que liga Santa Cruz a Puerto Suárez, já está em operação. A ideia é estender a linha até Ladário, onde há uma área alfandegada pronta para facilitar o transporte de cargas. Mas o plano mais ambicioso prevê a conexão ferroviária entre Santa Cruz e Campo Grande, e, futuramente, entre Cochabamba e a fronteira argentina, onde a linha férrea se encontraria com a Rota Bioceânica.
“A estrada rodoviária será um avanço importante, mas a ferrovia pode aumentar a competitividade e dar mais eficiência ao comércio exterior”, afirmou o governador sul-mato-grossense.
Uma América do Sul menos burocrática? Os benefícios econômicos da Rota Bioceânica são evidentes. Atualmente, um contêiner saindo de Mato Grosso do Sul precisa percorrer 4.300 km até o porto de Santos. Com a nova rota, a carga seguiria 3.320 km até os portos chilenos, reduzindo o percurso e o tempo de viagem ao mercado asiático.

Mas há um detalhe: a logística sul-americana não depende apenas de infraestrutura. A burocracia alfandegária, as diferenças regulatórias entre os países e a falta de integração digital ainda representam desafios. Empresários do setor de transporte alertam que, sem harmonização entre os países, a Rota Bioceânica pode se tornar apenas mais uma estrada sujeita a atrasos e impostos excessivos.
Os discursos do seminário foram otimistas. Riedel afirmou que Mato Grosso do Sul está “construindo pontes comerciais e sociais que transformarão a dinâmica econômica da América do Sul.” O auditório aplaudiu. Mas, fora das salas climatizadas do evento, os desafios da integração ainda esperam por soluções concretas.
Nesta quinta-feira (20), último dia do evento, os debates se concentram em formas de acelerar a implementação da rota e consolidar as parcerias entre os governos subnacionais. A estrada ainda precisa de ajustes antes de cumprir a promessa de unir um continente.
Fonte: A Crítica