Brasil finalmente terá seu primeiro trem de alta velocidade, depois de duas décadas de tentativas, promessas e adiamentos
Enquanto países como China, Japão, França e Espanha se consolidaram como referências globais em trens de alta velocidade, a América do Sul permaneceu à margem dessa revolução ferroviária. A combinação de geografia desafiadora, instabilidade política e prioridades econômicas voláteis travou projetos ambiciosos ao longo das últimas décadas. Agora, o Brasil está próximo de alterar esse cenário com o primeiro TAV do continente, conectando duas das maiores regiões metropolitanas das Américas: Rio de Janeiro e São Paulo.
Uma região onde trens rápidos nunca foram prioridade

A infraestrutura ferroviária sempre foi uma fragilidade histórica da América do Sul. A presença de cordilheiras, florestas densas e grandes distâncias entre centros urbanos dificultaram a construção de linhas contínuas. Além disso, políticas de transporte privilegiaram rodovias e aviação, enquanto mudanças frequentes de governo interromperam projetos de longo prazo.
Nos últimos anos, contudo, o continente vive um renascimento do setor ferroviário. Projetos como o Corredor Ferroviário Bioceânico, planejado para ligar o Atlântico ao Pacífico, reacenderam o interesse pelo transporte sobre trilhos. Paralelamente, Brasil, México e Chile vêm elaborando iniciativas internas para modernizar suas redes.
O nascimento (e as frustrações) do TAV brasileiro
O projeto do trem de alta velocidade brasileiro surgiu pela primeira vez em 2004, sob o nome Expresso Bandeirantes, com o objetivo de ligar São Paulo a Campinas. Sem avanços concretos, foi arquivado em 2007.
Com a chegada de Lula à presidência e a expectativa da Copa do Mundo de 2014, o plano retornou, dessa vez ampliado para conectar São Paulo e Rio de Janeiro. Mais tarde, o cronograma se estendeu aos Jogos Olímpicos de 2016. Nenhuma dessas metas foi cumprida.
Os motivos foram conhecidos:
- dificuldade de financiamento
- incerteza sobre a rentabilidade
- desinteresse de investidores privados diante dos riscos
O projeto parecia destinado a nunca sair do papel.
A virada de 2023: concessão privada de 99 anos
Em 2023, a empresa TAV Brasil recebeu da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) autorização para planejar, construir e operar a futura linha Rio–São Paulo.
Trajeto previsto:
- Rio de Janeiro
- Volta Redonda
- São José dos Campos
- São Paulo
Previsões:
- Conclusão dos estudos: 2026
- Início das obras: 2027
- Operação comercial: 2032
O investimento estimado é de R$ 60 bilhões (cerca de € 11 bilhões). A passagem completa deve custar aproximadamente € 85 por trecho.
Velocidade e impacto no tempo de viagem
O trem deverá atingir 320 km/h, acima do mínimo de 250 km/h considerado padrão internacional de alta velocidade.
Com isso, o trajeto de aproximadamente 400 km entre as duas megacidades, que hoje leva cerca de seis horas por estrada, poderá ser feito em 1 hora e 45 minutos.
Uma disputa global pelo contrato
Quem fornecerá a tecnologia e os trens ainda está em negociação. Entre as interessadas estão:
- CAF (Espanha)
- Alstom (França)
- Siemens (Alemanha)
- Fabricantes chinesas, que hoje dominam o setor e expandem influência na África e na América Latina
O contrato é visto como estratégico e bilionário, com implicações geopolíticas diretas.
Um futuro possível para os trilhos na América Latina

Se cumprido, o TAV Brasil pode se tornar a porta de entrada de uma nova era ferroviária no continente.
Após décadas de projetos interrompidos, o país parece, enfim, disposto a sustentar um plano de longo prazo.
A pergunta agora é: a obra vai sobreviver às próximas transições de governo?
A história mostra que isso nunca foi garantido.
Mas desta vez, há trilhos, investidores — e prazos.
Fonte: Xataka e Gizmodo

