Análise e Opinião – Ilo no Peru – Portos secos: não presentes
Portos secos — também chamados de portos terrestres ou terminais de carga interiores — são instalações localizadas no interior do país, conectadas por rodovia ou ferrovia aos portos marítimos. Oferecem serviços semelhantes aos de um porto tradicional, como alfândega, armazenagem, distribuição e expedição de mercadorias. Na prática, constituem uma extensão interior do porto marítimo, criada para aliviar o congestionamento em terminais saturados ou incapazes de lidar eficientemente com a crescente demanda do comércio exterior (UNCTAD, 2021).
No sul do Peru, a ideia de se estabelecer um porto seco tem circulado em veículos de comunicação especializados e associações empresariais. Tacna não possui porto próprio; Ilo enfrenta limitações de acesso e armazenamento; e Matarani, embora dinâmica, enfrenta desafios de crescimento que podem ultrapassar sua capacidade. Soma-se a isso a expectativa de que as exportações do setor de mineração continuem a crescer, que o agronegócio se expanda com novos projetos de irrigação e que o Brasil e a Bolívia considerem a macrorregião sul como uma rota alternativa para suas exportações e importações, inclusive com a possibilidade de conexão via cabotagem aos megaprojetos portuários de Chancay e Callao (MTC, 2024).
Contudo, essas ideias, embora lógicas, não são sustentadas por estudos técnicos e científicos. Num futuro próximo, o porto seco não consta da agenda oficial de infraestruturas; porém, a médio prazo, poderá emergir como uma opção viável caso as condições de produção e comerciais o justifiquem.
Experiências Internacionais
Globalmente, os portos secos tornaram-se componentes essenciais da logística moderna. Na Europa, o porto seco de Duisport, na Alemanha, conectado ao porto de Roterdã, movimenta mais de vinte mil trens por ano, consolidando-se como um dos maiores centros logísticos interiores do continente (Duisport, 2023).
Na Ásia, Zhengzhou, na China, ligada aos portos de Xangai e Tianjin, faz parte da Nova Rota da Seda, integrando cadeias logísticas continentais de grande escala (Chen & Li, 2022). Nos Estados Unidos, o Kansas City SmartPort funciona como um centro intermodal que conecta ferrovias, rodovias e aeroportos, otimizando a distribuição de mercadorias (SmartPort, 2023).
Na América do Sul, exemplos notáveis incluem Campinas, no Brasil, especializada em cargas aéreas de alto valor agregado; Bogotá, na Colômbia, que opera como uma zona franca multimodal com forte digitalização; e os complexos logísticos dos Andes, no Chile, e de Mendoza, na Argentina, que conectam o corredor bioceânico Atlântico-Pacífico. Na Bolívia, Santa Cruz e El Alto desempenham um papel estratégico, com foco no agronegócio e na mineração, compensando assim a condição de país sem litoral (CEPAL, 2022).
O caso peruano
O Peru, devido à sua extensa costa e à presença de múltiplos portos marítimos, não desenvolveu portos interiores. No entanto, no sul do país, há indícios que alimentam o debate: aumento da atividade mineradora, expansão agroindustrial e crescimento do comércio exterior com o Brasil e a Bolívia. Os portos de Ilo e Matarani enfrentam limitações territoriais, o que levou a sugestões de possíveis localizações na planície de La Joya, em Arequipa, ou na planície de El Hospicio, em Moquegua. Sem estudos prospectivos sólidos, essas propostas permanecem como aspirações, e não como projetos viáveis.
Reflexão final
Portos secos são uma ferramenta comprovada para melhorar a eficiência logística e descongestionar terminais marítimos. No Peru, eles não fazem parte da agenda imediata, mas podem emergir a médio prazo como uma opção estratégica, especialmente para a macrorregião sul. A chave será a realização de estudos prospectivos rigorosos que avaliem sua viabilidade econômica, territorial e ambiental.
É importante ressaltar que os portos secos não devem ser confundidos com as Zonas Especiais de Desenvolvimento (ZEDs), cuja missão é atrair investimentos para processos de industrialização, enquanto os portos secos desempenham uma função estritamente logística e aduaneira ligada ao comércio exterior.
Em conclusão, o debate sobre portos secos no Peru deve passar da especulação para o planejamento estratégico. Só então será possível determinar se, a médio prazo, a macrorregião sul encontrará neles uma solução real para impulsionar seu desenvolvimento econômico e integração internacional.
Por: Jorge Acosta Zevallos – Prensa Nacional

