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A política nacional de ajuste de obras públicas ameaça o Corredor Bioceânico

Corredor Bioceânico de Capricórnio é talvez um dos projetos de infraestrutura regional mais ambiciosos das últimas décadas, pois terá um impacto direto na competitividade logística da América do Sul e em sua integração estratégica ao comércio global.

A Rota Bioceânica é um corredor rodoviário de 3.320 quilômetros que conecta o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico, atravessando Argentina, Brasil, Paraguai e Chile. Passa pela nossa província em um trecho da região do Chaco, em Salta, e depois pela região de Tartagal, pela Rota Nacional 34, até Urundel. De lá, entra na província de Jujuy, onde continua até o Paso de Jama. Salta é a outra opção, pois, partindo de Güemes (Rota 34), passa pela capital e continua pela Rota Nacional 51 até o Paso de Sico, na fronteira com o Chile.

O megaprojeto, assinado na Declaração de Assunção de 2015, visa criar uma alternativa real ao Canal do Panamá. Segundo cálculos logísticos, o Canal Bioceânico poderia reduzir os custos em até 25% para exportadores agrícolas como o Paraguai, um dos maiores exportadores de soja. Para o Brasil, significa abrir uma janela direta para a Ásia sem depender de longas viagens para o norte. Para o Chile, representa o relançamento de seus portos do norte como uma plataforma logística continental. E Salta está prestes a se tornar um importante polo logístico, com portos de entrada e saída para ambos os oceanos.

Do ponto de vista brasileiro, a Ministra do Planejamento, Simone Tebet, destacou o potencial do Corredor Bioceânico para acelerar o desenvolvimento regional. “A América do Sul não alcançará um desenvolvimento verdadeiro sem promover uma integração física adequada”, afirmou. Nesse sentido, ela enfatizou que a distância geográfica entre o Brasil e a Ásia é menor ao longo do Pacífico do que ao longo do Atlântico, tornando o Corredor uma alternativa estratégica não apenas para o comércio com a China, mas também com outros mercados do Sudeste Asiático.

A política nacional de ajuste de obras públicas ameaça o Corredor Bioceânico.

Agora, enquanto Paraguai, Brasil e Chile já iniciaram as etapas finais da construção, a Argentina ainda está na fase inicial de documentação.

Uma delegação do Paraguai e do Brasil visitou o trecho argentino da rodovia no mês passado. A situação é lamentável, pois não há sinais de início de obras. A Rodovia Nacional 34, nos trechos de Salta, está literalmente abandonada. A Rodovia Nacional 51 tem trechos sem manutenção e muitos quilômetros sem pavimentação; o Rio Toro causou estragos durante a última estação chuvosa. No entanto, todos sabem que há uma disputa entre o Passo Sico e o Passo Jama. O Passo Jujuy foi completamente pavimentado em 2005.

No Chaco de Salta

A Rota Provincial 54 enfrenta diversas complexidades para resolver. Uma delas se refletiu nos 13 protestos de comunidades indígenas que a encontraram bloqueada entre Misión La Paz e Aguaray. Atualmente, o bloqueio de La Gracia permanece em vigor no início da rota, próximo à fronteira com o Paraguai, onde a inundação do rio Pilcomayo levanta sérias questões. É justamente em La Gracia que está prevista a construção de uma nova ponte, considerada essencial pelo governo paraguaio.

O bloqueio está em vigor desde a semana passada, e foi lá que a nova ponte encontrou oposição dos chefes locais. No mesmo local — uma área localizada a nada menos que dois quilômetros de Misión La Paz, com postos de controle de alfândega, imigração e gendarmaria — o rio Pilcomayo ameaça seriamente a rota da Rota 54. Hoje, o barranco está a menos de 20 metros da estrada. Segundo os moradores, a primeira enchente da estação chuvosa pode varrer a estrada, como aconteceu com a área de La Estrella em março deste ano. Chefes locais, curandeiros, indígenas e cientistas temem que a torrente deixe Misión La Paz, com todas as suas famílias e escritórios do Estado, isolados. O raciocínio é simples: “Se não conseguem resolver a erosão do rio Pilcomayo em um trecho de 100 metros, é ainda menos provável que consigam resolver os problemas de toda a Rota 54.”

A política nacional de ajuste de obras públicas ameaça o Corredor Bioceânico.

O que falta é todo o trabalho de consulta com as comunidades indígenas, não apenas na região do Chaco de Salta, onde há um território protegido por uma decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, mas também na Garganta do Rio Toro e nos Andes, onde as comunidades já têm decisões favoráveis ​​sobre projetos suspensos em longos processos judiciais.

O governo de Salta afirmou que “há muitos esforços sendo feitos, mas eles não são visíveis”, e isso é verdade. Esta semana, o Diário Oficial publicou a regulamentação da lei que autorizou o financiamento da Rota 51. Apesar de ser uma rota nacional, o Governo Provincial será responsável pela pavimentação dos trechos que aguardam asfalto. Os dados devem ser objetivos, pois esses projetos vêm sendo solicitados desde 2012 por quatro governos nacionais, incluindo o atual. A filiação política não importa; a centralidade importa.

A província deverá investir US$ 300 milhões somente na construção da Rodovia Nacional 51, com financiamento da Fonplata, do Banco Mundial e do BID. Os projetos pendentes na Rodovia 54 ainda não foram definidos, assim como a decisão do país em relação à Rodovia 34. Para se ter uma ideia da magnitude do projeto do Corredor Bioceânico, o Paraguai já investiu mais de US$ 700 milhões na construção de 532 quilômetros de estradas ligando as cidades de Carmelo Peralta (na fronteira com o Brasil) e Pozo Hondo (na fronteira com a Argentina). Novas pontes estão planejadas em ambas as extremidades. O Paraguai espera ter todos os projetos concluídos até meados do próximo ano.

O El Tribuno visitou o trecho entre Pozo Hondo e Mariscal Estigarribia e acompanhou o andamento das obras. Mas não é só isso. No recente Encontro Mundial do Grande Chaco Americano, realizado no Paraguai com mais de 300 organizações do segundo maior bioma da América do Sul, foram abordados os “impactos acumulados em torno da Região Bioceânica”, com análises e avaliações de longo prazo.

A política nacional de ajuste de obras públicas ameaça o Corredor Bioceânico.

Falta consulta às comunidades indígenas

Qualquer projeto localizado em um território indígena deve passar por consultas livres, prévias e informadas (CLPI) com as comunidades indígenas, e planos de comunicação devem estar em vigor para manter o público informado.

Em um dos avanços das conclusões do Encontro Mundial do Chaco Americano , realizado na semana passada no Paraguai, as mesas do “Corredor Bioceânico” asseguraram que o desenvolvimento de projetos de infraestrutura, em particular do corredor bioceânico, na região requer uma consulta prévia, livre e informada, real e vinculativa que “inclua todas as comunidades afetadas, em suas línguas e com tempo adequado; que não se limite a compensações, mas a planos de mitigação socioambientais, com estudos de impacto abrangentes antes de avançar com novos trechos”.

Foi proposta a criação de um Fundo Indígena permanente financiado com uma porcentagem de pedágios e taxas do Corredor Bioceânico para programas comunitários (educação, saúde, água e projetos produtivos).

A política nacional de ajuste de obras públicas ameaça o Corredor Bioceânico.

Para reduzir os impactos negativos, as comunidades exigem atenção a riscos como o tráfico ilegal, bem como estratégias de prevenção à violência com programas específicos contra o tráfico de pessoas para exploração laboral ou sexual. Foi proposto um “pacto trinacional de comunidades afetadas”: coordenação entre povos indígenas, organizações sociais e municípios da Argentina, Paraguai e Bolívia. Também é preciso garantir que as partes interessadas locais sejam parte da governança do corredor e não apenas beneficiários secundários.

Alguns setores descrevem essa posição como “morna” e cobram representações mais fortes dos Estados na defesa dos povos indígenas.

E no meio de tudo isso, há um caso que precisa ser relatado. No coração do Chaco americano, encontra-se o povo Ayoreo, um grupo isolado, também conhecido como “isolado”, entre os quais se encontram os Totobiegosode, habitantes nativos da região montanhosa que hoje abrange o Paraguai e parte da Bolívia.

Os Totobiegosode são o último grupo indígena em isolamento voluntário no Alto Chaco paraguaio. Fazem parte do povo Ayoreo e são conhecidos por seu profundo conhecimento da floresta. Mantêm contato com o mundo exterior desde 1969, mas mantêm membros em seus territórios ancestrais que evitam a interação. São povos vulneráveis ​​e enfrentam constantes ameaças de desmatamento devido à expansão da pecuária em seu território e, agora, à construção do novo “Corredor Bioceânico”.

Ela é mencionada, nomeada e alertada porque do lado chaquenho de Salta há cidades que também estarão em uma situação mais vulnerável do que a atual, e porque ainda não se falou em consulta livre, prévia e informada, que é um requisito essencial para todo financiamento externo.

A contribuição territorial

O Brasil contribui com a maior porcentagem de território para o eixo, respondendo por mais de 35% de sua superfície.

A contribuição territorial da Argentina também se aproxima de 35%. As províncias de Salta, Jujuy e Tucumán são importantes polos logísticos.

O Paraguai compromete 100% do seu território, representando 15% da sua superfície, dentro do Corredor.

O Chile participa com aproximadamente 12% de sua superfície.

A área de influência do Corredor Bioceânico de Capricórnio abrange 2.722.534 quilômetros quadrados, o equivalente a 15,3% da superfície do continente sul-americano. Em termos demográficos, a área de influência conta com 53.509.280 habitantes, o que representa 13,2% da população da América do Sul. Estima-se que aproximadamente 600 caminhões trafeguem pelo Corredor em ambas as direções diariamente. Atualmente, esse número é de 2.000 caminhões por mês.

Fonte: El Tribuno – ARG.

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